Publicado em Escrita criativa, Resenhas

A mais pura verdade

Ele era um menino tímido, calado. Seus óculos pareciam grandes demais para o rosto, mas, de certa forma, lhe davam personalidade. Estávamos ali, frente a frente naquela aconchegante sala de estar, pois tínhamos um vínculo sanguíneo, ainda que distante. Se tínhamos nos visto antes, não me lembrava. Também não questionava os motivos por trás do nosso encontro repentino ou o fato de ele estar de pijama. Éramos crianças e essas coisas não importavam.

Brincamos, mesmo acanhados, e observei por algum tempo como a inteligência do menino à minha frente se demonstrava em nossas brincadeiras. Lembro-me de desejar ser pelo menos um tantinho igual a ele.

Aquelas poucas horas passaram rápido, mas havia promessa de mais horas como aquelas em outro dia. Se esse outro dia aconteceu, não me lembro. Só me lembro que um dia ele estava lá e, no outro, não estava mais. Aos 5 anos eu tive meu primeiro contato com a morte.

Ninguém me explicou o que significava morrer, mas acho que soube por instinto. Estar lá no céu era um eufemismo que eu não entendia, mas que me confortava. Se ele estava num outro lugar que era ainda melhor do que onde estávamos, então deveria estar feliz. O céu parecia um lugar legal.

Demorei anos para entender a metáfora para a presença versus ausência, mas hoje me pego desejando ter continuado na minha inocência de acreditar que existe um lugar físico chamado céu para onde vão as pessoas que desaparecem. Aos olhos das crianças, tudo é sempre muito mais simples e confortante. Para a criança, tudo é possível, mesmo quando não é. Aos olhos de uma criança com óculos grandes demais para o seu rosto, talvez tudo faça sentido, mesmo quando não faz.


O texto acima foi escrito com base em uma memória que o livro A mais pura verdade me causou. Quem tiver interesse no livro, ele pode ser encontrado aqui.

Autor:

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.