Marcas de nascença

Passou metade de sua vida se preocupando com o grito de socorro dos outros, olhando bem, sua existência não foi mais que a tradução de um grito de socorro, mas não o seu. O que restará dele é o grito de socorro de um outro.

O trecho acima explica muito bem quem é o personagem principal de Marcas de nascença: um psiquiatra de 40 e poucos anos cuja vida se resume – e basicamente sempre se resumiu – à sua profissão. Mas quem era Kadoke se retirassem dele o título de psiquiatra? Quem é o leitor se retiram dele o título de sua profissão? O que é considerado vida e o que não é? Vida é só um não-morrer?

Por essas questões e por muitas outras, Marcas de nascença é quase uma sessão de terapia. Ele mexe com nosso âmago, nos faz questionar nossa própria vida. E é por isso mesmo que recomendo cautela ao ler esta obra. Para quem tem a tendência a ser empático demais, o livro todo está recheado de gatilhos. Kadoke e Michette, principalmente, são pessoas (digo pessoas porque são personagens muito reais) com tantas características pertinentes a um leitor com transtornos psiquiátricos que a história pode desencadear sentimentos fortes e reavivar determinados questionamentos.

Por outro lado, é também um belo livro sobre relações familiares e laços afetivos, escrito de uma forma tão incrível que faz o leitor se questionar sobre a naturalização real de algumas características, e sobre a hipocrisia de chegar a pensar em tal fato como uma reviravolta na história. Será que estamos mesmo livres de todo preconceito ou só achamos que estamos?

Arnon Grunberg escreveu um livro que ficará marcado em mim por um bom tempo. Espero que fique marcado também em quem ler essa resenha e decidir ler o livro.

Marcas de nascença foi o livro enviado pelo Clube da Rádio, da Rádio Londres, em janeiro, com tradução de Mariângela Guimarães. Vocês podem adquiri-lo diretamente no site da editora ou por aqui.

4 comentários

  1. Amei sua resenha, Nane! ❤ Desde que vi seus primeiros comentários sobre essa obra nos stories, já me encantei com a premissa e as reflexões que essa leitura pode proporcionar, o que me fez colocá-la nos desejados no mesmo instante. Gosto bastante de pensar e discutir sobre essas questões mais filosóficas e pessoais, como "estamos realmente vivendo ou somente existindo?", assim como as consequências dessa resposta em nossas relações familiares, amorosas, laborais e de amizade. Estou super curiosa por essa leitura, quando a fizer te chamo pra conversarmos a respeito 😉

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