As boas mulheres da China – Xinran

Na quarta capa de As boas mulheres da China, encontramos o seguinte: “O olhar objetivo de Xinran dá aos temas um tratamento firme e delicado…”. Fosse uma palavra desta frase diferente, eu concordaria. Porque As boas mulheres da China não é nada senão um livro totalmente subjetivo. E não, isso não quer dizer que é um livro ruim. O que acontece é que ele me causou muitos sentimentos conflitantes, os quais vou tentar explicar a seguir.

O livro é composto por relatos da jornalista chinesa Xinran sobre as vidas de algumas mulheres chinesas que já passaram por TANTAS coisas horríveis (e são TANTAS as coincidências que acontecem na busca de Xinran por suas histórias) que, às vezes, nos perguntamos o quanto de veracidade e o quanto de ficção há nos capítulos deste livro. A forma como os relatos são escritos, as palavras certas nas horas certas, e muitos outros recursos da ótima escrita de Xinran contribuem para a nossa dúvida. Será que uma criança escreveria uma carta com essas palavras? Será que Xinran lembraria exatamente as palavras que falou ao telefone e que horas eram quando este tocou? Talvez tenhamos que saber mais sobre jornalismo literário para falar com propriedade, mas o que me vem à cabeça é justamente o que disse no começo: há subjetividade na escrita. Por mais que achemos que nossas memórias são a representação exata dos acontecimentos, nosso cérebro tende a modificá-las, ainda que pouco. Quando falamos de escrita, então, nossa massa cinzenta e os neurônios que por ela percorrem tendem a florear tudo um pouco mais para que no papel não se leia um fluxo de consciência sem sentido.

O fato é que, mesmo com tanta subjetividade e com alguns problemas ao tratar de assuntos de sexualidade – e aqui me refiro ao único relato de uma mulher homossexual na China e a necessidade de uma explicação para o motivo de ela ter “se tornado” homossexual (fora um erro de tradução gravíssimo que espero que tenha sido consertado em edições posteriores à que tenho)* –, Xinran conseguiu me emocionar e me chocar por diversas vezes. Pouco conheço da cultura chinesa, mas, por meio de seu livro – salvo heroicamente de nunca ser publicado, diga-se de passagem –, a jornalista conseguiu me transportar ao menos um pouco para a pele de mulheres que vivem numa sociedade opressora em níveis inimagináveis. São mulheres que, muito provavelmente, teriam tido vidas bem diferentes se tivessem nascido no mundo ocidental, e talvez a própria Xinran tivesse tido um outro olhar (por vezes, senti um pouco de preconceito na própria voz narrativa) para tudo aquilo que vivenciou enquanto colhia material para o seu trabalho.

Sim, apesar de Xinran ter ajudado muitas dessas mulheres, a impressão que tive é que ela estava apenas colhendo material, tentando satisfazer uma curiosidade própria a todo custo, disposta a abrir feridas que nunca cicatrizaram completamente nessas mulheres sofridas, apenas para que todas as suas perguntas fossem respondidas. Isso me incomodou porque, como escritora, já quis sentar com a minha mãe – uma mulher que também já passou por coisas inimagináveis – e pedir que ela me contasse a história de sua vida. Mas isso seria correto de minha parte? Seria justo com a minha mãe? Seria justo causar dor para escrever uma história? A resposta para mim é bem simples: não.

Portanto, é um livro que pode tocar muito, pode fazer chorar (inclusive, chorei), mas que não sei dizer exatamente se indicaria para alguém ou não. Talvez eu tenha chegado em uma época da vida em que problematizo mais coisas do que deveria, mas não consigo olhar com outros olhos. Ou seja, recomendo, mas com (muitas) ressalvas.

*Se a autora utilizou o termo erroneamente no manuscrito original, não sei dizer. Porém, a tradução para o português foi feita a partir da tradução para o inglês, onde a palavra “homosexuality” é utilizada corretamente. No entanto, no português do Brasil, a palavra aparece várias vezes como “Homosexualismo”, termo não aceito desde, pelo menos, os anos 1990, quando a OMS deixou de considerar a homossexualidade uma doença. O sufixo “ismo” está diretamente associado a patologias e, portanto, seu uso está incorreto em qualquer situação.


Gostaria de deixar claro que a resenha acima é baseada na minha OPINIÃO. Todos têm o direito de discordar de mim e de ainda acharem que o livro é maravilhoso, ok? Se ficaram curiosos, o livro pode ser encontrado para compra aqui.

Beijinhos

3 comentários

  1. Não poderia concordar mais contigo! Talvez se eu não tivesse lido outros livros de jornalismo documental, não veria tantos problemas nessa leitura, nas inúmeras coincidências e na voz evidente da autora. Gostei de conhecer um pouco da realidade das mulheres chinesas, mas queria ter tido mais da voz dessas protagonistas. Sobre o termo, na versão que eu li também está como “homossexualismo”, e se isso for erro de tradução, é um erro grave! E mesmo que não seja, que tenha sido uma escolha da autora, acho que valia a pena colocar um disclaimer, né? Assim como você fez, um aviso de que o termo é considerado incorreto e tal. Falando em homossexualidade, o tratamento que a autora deu à narrativa da mulher lésbica me irritou profundamente, foi nocivo e estereotipado, além de ficar constantemente buscando um “porquê”.

    Espero não ter atrapalhado muito a tua experiência de leitura com as minhas opiniões antes! Hehe

    Um beijo.

    Curtir

  2. Gostei muito de saber sua opinião Nane. Como eu sempre falo, opinião sincera é tudo. Eu ainda não sei ler de uma forma aprofundada e de forma mais crítica, minha leitura é superficial e se a história me envolver então. E esse livro me envolveu de uma forma. Eu amei conhecer um pouco da cultura da China, uma parte muito triste, e isso foi o que mais me chamou atenção na história, a realidade de algumas mulheres. Ler o que você escreveu, fez meu cérebro pensar e questionar, e isso é muito bom, pois os próximos livros nesse estilo, lerei com mais atenção. Mas fico feliz que você tenha dado uma oportunidade a esse livro e ter tido sua própria experiência com ele.

    Curtir

    1. E eu entendo perfeitamente! Eu também fiquei bem chocada com algumas histórias e *acho* que se fosse uma história considerada “baseada em fatos”, eu teria amado! Mas, como eu disse, pode ser que também me falte embasamento em teoria de jornalismo literário para criticar com propriedade. Acho importante a gente discutir essas questões pra ver o que chama atenção de um e de outro não etc. Mas também fico feliz de ter dado uma chance para ele. Aprendi bastante, com certeza ♥️

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s