A Viagem – Virginia Woolf

[Este texto contém spoilers]

É difícil começar uma resenha quando um livro fala tanto conosco. É muito difícil porque parece que, não importa o que eu escreva, ainda nunca será uma análise completa ou que esteja à altura de uma obra como A viagem.

Primeiramente, é importante dizer que o que encontramos na obra de Woolf não é um enredo convencional, uma história como todas as histórias contemporâneas ou até mesmo como os romances clássicos. A escrita de Woolf é singular em sua sutileza e em sua beleza, em sua capacidade de expressar sentimentos, pensamentos e pontos de vistas de forma tão bela que o leitor acaba se perguntando se algum dia foi necessário haver, de fato, um enredo para qualquer história que seja. Portanto, é bom que as pessoas saibam que, ao se iniciar na obra de Woolf, elas estarão entrando em pensamentos e sensações, não em romances épicos com mocinhos e vilões e com histórias de amor para aquecer o coração. Virginia fala sobre a vida como ela é, como ela é sentida e, como boa integrante do movimento modernista na Inglaterra, não narra as ações de seus personagens da maneira como os realistas fariam. Temos uma vaga ideia de como é a aparência deles, por exemplo, cabendo a nós formarmos as devidas imagens em nossa cabeça da maneira como bem entendermos.

Pois bem. Passando da breve explicação sobre o que podemos esperar de uma obra de Woolf, em A viagem somos primeiramente apresentados ao casal Ambrose e sua aparente classe social para que, então, conheçamos Rachel, personagem principal desta história e uma mulher de 24 anos que viveu a vida toda em uma bolha (ou melhor, em uma casa com duas tias e em um navio com um pai superprotetor). O encontro entre Helen Ambrose e Rachel é o gatilho para o restante da história, já que Helen percebe a ingenuidade da sobrinha e assume a missão de educá-la em tudo o que diz respeito à vida, talvez até como forma de substituição aos filhos que teve de deixar para trás ao viajar com o marido em direção à América do Sul.

Durante os seis primeiros capítulos do livro, o ritmo é ótimo e ditado pelos diálogos entre os Ambrose, Rachel, seu pai e o casal Dalloway (que acabou pegando uma carona em determinado momento da história). O que vemos nesses diálogos são as discussões pertinentes – não só para a época como também para os tempos atuais – sobre classe, política e a posição da mulher na sociedade; tudo isso visto pelos olhos dessas personagens que não poderiam ser mais diferentes umas das outras, cada uma com seus pontos de vista com os quais nos identificamos ou os quais repelimos. Um bom exemplo disso é Mrs. Dalloway que, em sua primeira aparição na obra de Virginia, se apresenta a nós, leitores, como uma mulher insuportável e meio sem noção da realidade, já que vive na sua própria bolha da classe alta.

E por falar em classe alta, o tópico de diferença social é um dos pontos de discussão durante toda a história, desde as descrições das pessoas nas ruas de Londres até os diálogos das pessoas ao longo da trama.

Quando se desistia de ver a beleza que vestia as coisas, aquele era o esqueleto que ficava por baixo.

A citação acima se refere à cidade e às pessoas que a habitam, mas também serviria muito bem para descrever outro tópico abordado por Virginia em A viagem: o amor. A obra é permeada por questões como “será que o que sinto é amor?” “por que as pessoas nunca falam o que realmente sentem?” “só existe um tipo de amor?” e muitas outras que não são totalmente explícitas, mas entendemos nas entrelinhas. E como expressar o que se sente? Como descobrir o que se sente? Para Rachel, é através da música; para Virginia, é através da escrita.

É praticamente impossível dissociar Virginia de sua obra, e isso é muito visível aqui em seu primeiro romance. Ora ela é Helen, ora é Mrs. Dalloway, ora é Terrence Hewet, e ora é Rachel. Ora, não. Virginia é quase sempre Rachel. Para quem já leu as obras de não ficção com as quais começamos o projeto, também vai reconhecer Virginia em diálogos sobre Jane Austen e as irmãs Brontë, entre outras coisas. Para aqueles que conhecem a vida de Virginia mais a fundo, também encontrarão no diálogo entre Richard e Clarissa Dalloway o sentimento de inveja que por vezes assombrava Virginia: o fato de sua irmã ter filhos e ela não.

– Ela tem filhos? Não parece.

– Dois. Um menino e uma menina.

Uma inveja aguda varou o coração de Mrs. Dalloway.

Além disso, é possível ver muito da personalidade de Virginia nos questionamentos sobre o que é real e o que não é (talvez Philip K. Dick se identificasse com ela nesse aspecto), qual é o sentido da vida e o que de fato importa. Devaneios acontecem, mariposas aparecem para quebrar um ritmo e dar início a outro, pessoas são envoltas em névoas e cenas estranhas acontecem – em resumo, o fluxo de consciência de Virginia já começava a dar as caras.

Bem, após longos (porém curtos) capítulos de ritmo BEM mais devagar que os capítulos do começo, nos encaminhamos para um fim que pegou muita gente de surpresa (apesar de que, lendo novamente as anotações para escrever este texto, cheguei à conclusão de que Virginia deu muitas pistas para que chegássemos a uma conclusão por nós mesmos e nós é que não vimos). Mas qual é o significado de fim para Virginia? A morte é mesmo o fim? Ou será que o fim não existe, já que a vida continua para os que ficaram? Talvez não tenhamos uma resposta exata para isso, mas só sei que o fim me impactou e por diversos motivos. (Quem quiser, pode me ver falando sobre ele aqui).

Analisando a obra como um todo, acredito que A viagem seja uma obra completa, ainda que seja possível ver também que a escrita de Virginia não estava em seu auge de maturidade. Há muitos, muitos pontos MESMO que não mencionei aqui, mas que deixo para vocês descobrirem por si próprios quando lerem A viagem. E espero que leiam, pois vale muito a pena.


A viagem foi traduzido para o português do Brasil por Lya Luft e publicado pela editora Novo Século. Apesar de o livro já não estar mais disponível em estoque na editora, ainda pode ser encontrado em sebos e em bom estado. Quem tiver interesse, pode acessar este link para dar uma olhada. 🙂

Beijinhos e até mais 😘

4 comentários

  1. Oi Nane!
    Sabe, eu nunca tinha realmente ouvido falar sobre Virgínia Woolf antes de você, a não ser pelas notas de rodapé ou breves citações. Fiquei muitíssimo interessada, já que, pelo que você descreve, a escrita dela tem tudo a ver com o que eu mais gosto em literatura. No momento, estou afogada em projetos e leituras com os quais já me comprometi e, infelizmente, não conseguirei entrar no virginiando que você está promovendo. Mas continuarei acompanhando e salvando suas listas para, assim que der uma desafogada, eu começar (atrasada) as leituras.
    Obrigada por descortinar Virgínia para mim!
    Beijos e sucesso! ❤

    Curtido por 1 pessoa

  2. Eu simplesmente amo o tanto que você fala sobre a autora com sentimento. Eu fiquei bem curiosa, acho que ainda não estou pronta para ler tanta coisa dela, para o projeto estou esperando meu momento quando for a vez de um teto todo seu, mas eu gostei muito da sua resenha e vou colocar esse livro na minha lista, sim.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Awww muito obrigada. Eu e ela temos uma conexão atemporal, acho. Talvez em vidas passadas tenhamos sido amigas ou algo assim hehehe. Coloca na lista, sim! Não sei se faz muito seu estilo, mas é um livro muito rico ♥️

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s