Escolhas

— Sim, eu errei desta vez. Me desculpe.

Uma frase aparentemente simples, mas que fica presa dentro da cabeça dela. O que sai em seu lugar é:

— Não, eu não sou o que você está dizendo que eu sou.

Por que é tão difícil para as pessoas admitirem seus defeitos?, é o que fica preso na cabeça da interlocutora. Não há resposta para isso.

Ela respira fundo, mas não consegue deixar de pensar em si, em todos os momentos em que a amizade se tornou tóxica e ela deixou passar. Afinal, é melhor ter alguém que se importe do que ninguém, certo? Não tem problema que a pessoa com que se tem amizade não respeita quando você diz que determinado assunto te causa ansiedade, que ficar tentando te irritar falando sobre como sua banda preferida é ruim não é brincadeira de adulto, que qualquer coisa que aconteça no Twitter deveria ficar no Twitter e não ser compartilhada com alguém que escolheu sair do Twitter. A pessoa que aparentemente se importa continua desrespeitando sua ansiedade, continua tentando te irritar, continua te mandando threads do Twitter. Continua sendo tóxica mesmo dizendo que não é. Porque é raro encontrar alguém que reconheça sua própria toxicidade.

A interlocutora, porém, é uma das raras exceções. Ela sabe que é tóxica quando quer, às vezes até manipuladora. Ela já foi dessas que sufocam e foi assim que descobriu que sufocar é diferente de gostar. Ela pode ser tóxica e sabe disso, a diferença é que ela trabalha em seus defeitos, a tal ponto que ela chega a achar que suas qualidades são invisíveis, irrelevantes. E é justamente por isso que ela se pergunta o porquê de atrair pessoas para sua vida que estão apenas preocupadas com o próprio sentimento, despejando tudo o que elas sentem sobre ela, como se ela fosse uma caçamba de rua cuja única função é receber esse entulho emocional.

Não seria hora de isso tudo acabar? Mas, se acabar, quem vai se importar? Um relacionamento que não faz bem é realmente melhor do que nenhum relacionamento?

Pela primeira vez na vida, a interlocutora dá uma resposta adequada:

— Obrigada pelos bons momentos, mas vou escolher a mim mesma desta vez.

Não, ela não digita a resposta que disse em voz alta. O silêncio basta. Finalmente o silêncio.

E então ela pensa sobre a frase que foi praticamente sua trilha sonora durante a vida toda, uma trilha sonora que nunca foi música, mas flutua em seu cérebro desde que foi dita pela primeira vez. Ela respira fundo novamente e percebe que realmente a solidão é uma escolha, mas que amor próprio também é.

Ela sorri em meio às lágrimas. Ouve as maritacas passando em revoada, ouve as vozes ao seu redor em sua casa. Não, ela não está sozinha. Ela tem três pessoas e três gatas que são seu mundo. Ela tem amigxs que não ficam constantemente exigindo sua atenção, mas de cujo amor ela não duvida. Ela tem, sim, pessoas que se importam. Aqui, ao seu lado; no sul, no norte, no sudeste, no nordeste. Ela sorri porque percebe quem são os seus de verdade.

Talvez os pensamentos dos acontecimentos desse dia fatídico fiquem com ela em forma de cicatriz. Mas é só isso que eles serão: só mais uma marca, um sinal, um lembrete, estrias de um crescimento súbito, mas necessário. Porque ela decidiu, a partir desse dia, escolher a si mesma todas as vezes em que precisar escolher.

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