O papo do vovô

Imagem de skalekar1992 por Pixabay

Serra serra serra-dô, serra o papo do vovô!

E, então, tendo sido virada de ponta cabeça nas pernas dele que me amparavam com tanto cuidado, eu gargalhava.

Eram tempos felizes em que o mundo ainda não havia corrompido meus pensamentos, em que eu não sabia exatamente tudo o que tinha se passado na vida dele, na vida da minha mãe, na vida de todos os outros adultos envolvidos. Vidas sofridas marcadas pela tragédia da perda.

Tal perda às vezes se refletia na música que era trilha sonora nos almoços de natal, pois não consigo explicar o motivo de sentir tanta tristeza ainda hoje quando ouço No rancho fundo.

E, talvez, No rancho fundo seja também a trilha sonora de hoje, já que me traz tantas memórias daqueles dias de infância em que eu e meu avô ainda éramos próximos, daqueles dias em que ainda não sentia raiva dele por como ele tratava minha mãe, dos dias em que só via o lado bom das histórias e me deixava levar por serra-serra-serra-dôs.

Porque hoje meu avô morreu, sem mais nem menos. Hoje minha mãe chorou, meu tio chorou, eu chorei. Mas o meu choro é diferente.

É diferente porque é um choro egoísta de quem se sente mal por ter desejado que isso tudo acabasse, que a mãe fosse deixada em paz de uma vez por todas. O choro de uma pessoa que se considera boa, mas tem pensamentos extremamente ruins de vez em quando. É um choro de pesar por uma relação que nem eu, nem ele, cultivamos. Deixamos morrer o sentimento assim como as pessoas morrem: sem mais, nem menos. É um choro de: poderíamos ter feito mais um pelo outro.

Poderíamos. Futuro do pretérito. Condicional.

A morte tem dessas, de nos fazer pensar sobre tudo o que estamos fazendo e para onde estamos indo. Será que queremos morrer cheios de ressentimento? Será que morrer sozinho é melhor do que morrer com pessoas ao nosso redor? Será, será, será?

São tantos possíveis passados e futuros que fazem a cabeça rodar. O rodar da vida faz a cabeça rodar. E caímos, desorientados, pedindo para o chão parar de se mexer para que possamos levantar novamente. Mas ele não para. No máximo, diminui de velocidade. E, de repente, a gente sente vontade novamente de estar entre as pernas do avô, sendo virada de cabeça para baixo enquanto uma voz canta: serra serra serra dô, serra o papo do vovô!

2 comentários

  1. Oi, Nane! Sempre acompanho seus escritos por aqui; gosto muito de lê-los. Sinto muito por sua perda ♥️ que você e sua família encontrem paz e consolo nesse tempo em meio a pessoas que lhes querem bem. Um abraço. 🖖🏻

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