Publicado em Resenhas

Fugi da trilogia. Ela me encontrou. Formamos um bom par.

Foto autoral.

Livros que não são únicos me dão preguiça por vários motivos, o principal deles é: provavelmente vou ter esquecido a história do anterior quando finalmente ler o próximo. Assim, quando me surpreendi com A bússola de ouro, primeiro livro da trilogia Fronteiras do Universo, logo adicionei sua continuação – A faca sutil – à lista, numa tentativa de não abandonar.
Deu certo!

Apesar de no começo eu ter ficado um pouco confusa, logo a história engrenou e eu não me senti mais tão perdida, mesmo depois de quase um ano ter se passado desde que interrompi a narração de Philip Pullman na minha cabeça.

Em A faca sutil, a vida de Lyra já não é a mesma que encontramos em A bússola de ouro e, enquanto ela tenta seguir sua missão sozinha, descobre que, na verdade, vai precisar da ajuda de um estranho com quem ela tem uma também estranha conexão: Will Parry.

Concentremo-nos no personagem de Will: um jovem de 12 anos cuja mãe sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo e Paranóia. Por conta dos problemas da mãe, a história apresenta uma inversão de papéis com relação ao cuidador/pessoa cuidada. É muito interessante como o autor trabalha isso ao longo da narrativa (principalmente no começo), apesar de um determinado uso de linguagem ter me incomodado um pouco quando estamos chegando ao fim do livro. Se vai continuar a me incomodar, veremos no próximo volume.

À medida que a narrativa foi evoluindo, por muitas vezes me peguei revirando os olhos, pensando: “Até parece que uma criança ia conseguir fazer isso”. No entanto, me lembrei também de que se trata de uma fantasia e que, se eu posso acreditar em ursos falantes, posso muito bem acreditar que duas crianças têm a missão de salvar o universo.

O livro também nos apresenta feiticeiras, espectros (que me lembraram muito os dementadores de Harry Potter, aliás) e seres humanos sem nada de sobrenatural, mas ainda mais assustadores do que as criaturas “irreais”. Realço aqui, também, a maneira como Pullman lida com a questão de inocência na infância e a utopia que muitos pregam por aí. O autor não nos poupa de verdades e realidades nuas e cruas quando necessário.

Tá. Tudo isso é muito legal, empolgante, nos deixa de coração partido, às vezes, mas a parte mais intrigante (não sei se diria genial, ainda) está na questão da religião que permeia toda a história. O quanto de culpa os alicerces criados pelos homens para construir a sociedade têm no declínio da própria sociedade? Seriam a religião e a sociedade um paradoxo, de certa forma? Diferentemente da faca apresentada como grande elemento da história do livro de Pullman, esse assunto é um elemento nada sutil e que pode, no mínimo, incomodar. Se de um jeito positivo ou negativo, acredito que só a experiência de vida de cada um poderá dizer. Para mim, por enquanto, está sendo positivo.

Espero poder ler A luneta âmbar em breve para dar meu veredito final.


O livro foi publicado no Brasil pela editora Suma, selo da Companhia das Letras, e traduzido por Eliana Sabino.

Autor:

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

Um comentário em “Fugi da trilogia. Ela me encontrou. Formamos um bom par.

  1. Que resenha incrível, Nane! 😍 Confesso que só fui me interessar mais em ler essa história depois que foram relançadas essas capas novas, pois achava as antigas bem esquisitas. Adoro o filme e, depois de ler seu texto, fiquei ainda mais curiosa pra conhecer a trilogia (apesar da minha preguiça de livros não únicos, que compartilhei lá no Insta 😅). Assim que eu fizer essa leitura, te chamo pra conversarmos, principalmente sobre esses pontos que te incomodaram quanto à linguagem utilizada pelo autor. Obrigada pela dica!

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