Publicado em Escrita criativa

A Doutora humana demais

Foto por Vijay Sadasivuni em Pexels.com

Será que é possível morrer de ansiedade? E não no sentido figurado, mas no sentido de estar lá, escrito na certidão de óbito: “Causa da morte: ansiedade”?

Respira. Para de pensar em morte. Nada é tão grave assim a ponto de você morrer. – pensa ela. Exceto os pensamentos que levam ao coração acelerado, o que já deve ter reduzido pela metade seu tempo de vida útil. – responde aquela voz ridícula dentro dela, aquela que sempre diz verdades quando ela não quer ouvi-las.

Ela respira mais uma vez, tenta dizer a si mesma que ela tem valor, sim. Ter um pedaço de papel para provar que alguém sabe de algo nem sempre quer dizer que a pessoa realmente sabe de algo. O contrário também é verdadeiro. Ela rola o feed mais um pouco, se depara com mais publicações inteligentes, rola ainda mais até encontrar uma que realmente vá fazer com que ela se sinta mal. Porque o intuito, afinal, é encontrar provas de que ela é uma fraude. Uma FRAUDE, com todas as letras em caixa alta para não haver dúvidas. Quando o feed já cumpriu seu papel de alimentar os pensamentos que aceleram o coração, ela muda para os stories. Ah! Agora sim é hora da humilhação! Olha essas pessoas com conteúdo de verdade, com Lives de verdade, com seguidores que também te seguem, mas que já deixaram claro que não gostam do seu conteúdo em comentários em outros perfis. Lógico, não disseram que não gostavam do seu perfil especificamente, mas é o que você concluiu com alguns emojis (ou com a falta deles). Vai ver é por conta de stories como os que você acabou de fazer. Aquela palavra que você usou naquele momento específico pode ter causado algo nelas, mesmo que você não tenha tido a intenção.

Pare. Apenas pare! – grita a outra voz dentro dela, a voz racional que ela nunca ouve. Largue esse celular agora!

Incrivelmente, ela obedece. Liga a TV, vai assistir a um episódio de uma de suas séries favoritas. Esquece do mundo virtual e se acalma com um mundo em que existem alienígenas, naves espaciais e vilões que sempre são derrotados. Ah! Como ela queria que os vilões dentro dela fossem derrotados! Se ela os chamasse de Dalek, será que ela acharia que era o Doutor regenerado? Será que acreditaria que pode, sim, derrotá-los? Talvez seja uma opção, acordar todos os dias se chamando de Doutora. A Doutora que não salva o mundo de alienígenas, mas que salva a si própria de pensamentos que a levam para o inferno. Um bom começo para uma história, aliás.




Autor:

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s