Fiat Lux!

A luz que queima é a mesma que acende?

Um bombeiro que coloca fogo poderia, em algum momento, enxergar que sua profissão não era bem assim nos primórdios? O fogo que o consome é pela destruição ou pela curiosidade de algo mais?

Fahrenheit 451 não é novidade para ninguém. Considerado um clássico da literatura, o livro nos alerta sobre os perigos de se ter livros, mas não lê-los; de lê-los, mas não entendê-los; de nos contentarmos com entretenimentos fáceis em vez de recursos que agregam; de esquecermos o real significado de família, amigos e felicidade em consequência disso tudo.

Com diálogos rápidos, fluidos e cativantes, Ray Bradbury nos apresenta um mundo distópico que, em 2020, não é mais tão distópico assim. (As pessoas preferem ver Reels do que resenhas literárias, afinal de contas).

Se os parênteses acima soaram um pouco elitistas para você, talvez você se incomode com os mesmos pontos com os quais eu me incomodei nessa história. Bradbury, por meio de um de seus personagens principais, afirma que o que acabou com o mundo foi o fato de o homem ter dado fim à superioridade/inferioridade (afirmando veementemente que quem lê é superior a quem não lê, além de colocar a “culpa” do desaparecimento dos livros nas minorias). Sendo eu uma pessoa que sabe diferenciar narrador de autor, relevei tais afirmações naquele momento, apesar de elas terem me incomodado, e teria achado de muito bom tom – aliás, teria ficado muito feliz – se a editora tivesse escolhido não publicar uma nota do autor ao fim, pois tal nota confirma que, naquele momento, não era a voz da personagem falando, mas sim do próprio autor. Sim, Bradbury estava falando “É tudo mimimi” antes de a expressão existir. Para quem quiser saber de onde tirei essa aparente heresia, basta ler as páginas 65 e 66 do ebook e depois a seção Coda e tirar suas próprias conclusões. Se elas forem diferentes das minhas, não tem problema também, ok? (Mas a minha vontade de ler histórias em quadrinhos quadruplicou, só digo isso. Fiquei até me imaginando me encontrando com o autor no além-mundo e forçando-o a me observar lendo HQs. Faria questão, inclusive, que fossem adaptações dos livros dele. Desculpem, me exaltei porque ainda estou irritada).

Fahrenheit 451 é uma obra que ainda indicaria por ser original, mesmo já tendo virado clichê por ter inspirado várias outras histórias no mesmo estilo, e por causar tantos questionamentos que acabamos por ficar com ela (e com o autor) na cabeça por dias a fio.


Publicação: Biblioteca Azul | Tradução: Cid Knipel

6 comentários

  1. Eu já vi falando dessa questão aí do autor. É complicado. Ainda bem que consegue diferenciar um do outro. As vezes não tem como. Mas HQs são tão boas que me junto a você nessa causa kkkkk

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      1. Eu adorei as mensagens que o livro passou no geral, mas quando descobri essas minucias e detalhes… é impossível não ficar levemente com raiva. Afinal, na cabeça desses autores (quase sempre homens, cis e brancos), a culpa é sempre das minorias e nuuuunca da maioria dominante que faz atrocidades – incluindo proibir/queimar livros. Enfim, é um clássico necessário mesmo, mas temos que ler ele com olhos mt críticos tbm! Adorei saber seus apontamentos Nane 💞

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      2. É isto! E sinto que posso ter sido crítica demais ou talvez ter interpretado errado, mas já encontrei outras pessoas com a mesma opinião, então fico mais tranquila hehe

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  2. Nane, mas estou chocadíssima com essa fofoca literária sobre o Bradbury! :O Que absurdo ele colocar essa carga sobre as minorias, principalmente considerando que livros são objetos de luxo (ainda hoje em dia, infelizmente). Estou só imaginando essa péssima nota do autor e as besteiras que ele deve ter falado sobre histórias em quadrinhos. Já me vejo na vingança pós leitura, lendo um quadrinho inspirado em Fahrenheit 451 (sim, existe!!!) hehehe

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    1. Mana, é real! A questão das HQs foi na própria história, quando o narrador meio que diz que as pessoas só deixaram sobreviver o que não presta (e as HQs estão ali no meio). Sei lá, eu tive essa visão, mas muita gente discorda. Vai ver eu só sou chata demais, mesmo 🤣

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