Publicado em Resenhas

Contos ordinários de melancolia

Um livro que chama a atenção pelo título; melancolia para uma melancólica. Existe melhor combinação?

A resposta é: sim, existe.

Contos ordinários de melancolia é uma leitura daquelas TÃO peculiares e TÃO experimentais, que, em determinado momento, estamos lendo tanto pela arte daquela junção de palavras toda quanto pela história que está sendo contada em cada um dos contos-poemas.

Mas o que seriam exatamente “contos-poemas”?

Exatamente o que parecem ser: um híbrido entre os dois gêneros literários, tão misturados que, às vezes, é impossível dizer que texto pertence a qual estilo.

O livro é dividido em 4 seções: Mata ciliar, Quem enfia o dedo se engana?, Mar, e Ainda é ordinário o que se levanta do mar?.

Eu diria que cada uma das 4 seções representa um conto composto por poemas (ou prosas poéticas) que transformam até o sumário (aqui chamado de Sumadorio) em algo belíssimo de se ler.

O livro, aliás, é tão inovador e tão belíssimamente artístico que, por diversos momentos, deixou a seguinte frase ecoando na minha cabeça: este livro deveria estar em um museu. Pois eu realmente me senti como se estivesse sentada em um daqueles bancos na frente de quadros nos museus, onde nos sentamos para absorver tudo o que a pintura tem a nos dizer.

Isso porque, em apenas 82 páginas, Ruth Ducaso dá um nó na cabeça do leitor a partir do primeiríssimo poema. É post-it colado pra tudo que é canto tentando captar todas as formas de interpretação de apenas algumas linhas; é um fluxo de consciência tão incrível e intenso que, em determinado momento, o leitor pode se deparar com o seu próprio monólogo interior refletido nas páginas. Quem diria que outras pessoas também escrevem frases sobre um assunto enquanto pensam em (ou escutam) Caetano Veloso e, quando dão por si, o texto já se transformou num misto de todos os sentidos e sensações que as circundam?! 

E quem diria que um título que se refere à melancolia trataria de temas ainda mais pesados do que o leitor imaginava?!

Alguns contos-poemas são chocantes por serem explícitos; outros chocantes por poderem significar mais do que se pensa. Destaque para os textos Mata ás, Se eu soubesse escrever poema erótico me aliviaria nestes signos, Oito e Sete.

A narrativa de Ruth Ducaso é peculiar; única. Ela trabalha as palavras de modo que alguns contos-poemas dão a sensação de que está faltando alguma coisa, de que há um vazio ao fim da frase. Os contos epistolares contidos aqui talvez expliquem o que significa exatamente essa falta, quem exatamente ela significa.

Fica aqui apenas o aviso de potenciais gatilhos com relação aos temas de depressão, suicídio, violência contra a mulher e abuso sexual infantil.


Ruth Ducaso é, na verdade, Luciany Aparecida. 

A publicação é da editora ParaLeLo13S e o livro foi enviado na categoria Livro do mês (de agosto) do Clube da Baleia, da Livraria Baleia. Mais do que recomendado! (Tanto o livro quanto o clube).

Autor:

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

3 comentários em “Contos ordinários de melancolia

  1. Que resenha mais preciosa, Nane! ❤ Uma pena que o Instagram limita demais os carácteres, mas parece ser daqueles livros que a gente poderia ficar falando durante horas, né? Esse fluxo de consciência acho que foi algo que te agradou muito e que me agradaria também 🙂 O livro já está super nos desejados, curiosa pra conhecer essa prosa-poética, estilo que tanto me encanta ❤

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