Sem gentileza – Futhi Ntshingila

Foto autoral

As primeiras páginas de Sem gentileza, escrito pela sul-africana Futhi Ntshingila, ditam a intensidade do que teremos pela frente. Mvelo, 14 anos, cuida sozinha da mãe com aids e precisa vasculhar os lixos em busca de comida para poderem sobreviver. Esta situação está destacada em um trecho que escancara as diferenças entre as classes:

Nós, os esquecidos, sabemos que segunda-feira é dia do lixo. Nós saímos em peso nas manhãs de segunda para vasculhar os sacos pretos que guardam essa linha frágil entre a vida e a morte para nós.

Ficamos com essa sensação de aperto no peito à medida que, uma após a outra, as tragédias vão moldando a vida de Mvelo. E não que gostemos de tragédia ou torçamos para isso, mas é o que faria mais sentido naquele contexto. O coração, de apertado, vai até à boca. Nos seguramos na cadeira e quase roemos as unhas quando… a autora começa a contar outra história, do nada. Sim, histórias de outras pessoas (ainda que relacionadas à história de Mvelo), deixando aquela sensação de anticlímax no ar e no fundo da nossa garganta. O coração volta para o lugar, desapontado.

É compreensível o caminho que Ntshingila toma para demonstrar a importância da ancestralidade e de conhecermos a cultura de um país acostumado com adolescentes sendo engravidadas por “tios”, com violações disfarçadas de teste de virgindade e com homens que acreditam ser trabalho da mulher se proteger contra doenças e gravidez em plena alta do vírus HIV. É compreensível, mas não necessariamente a melhor escolha para manter o leitor cativado. Afinal, por que começar o romance contando a história de Mvelo se a personagem vai ser “esquecida” até quase o fim do livro? Falta equilíbrio entre os pontos de vista, nos dando a sensação de que algo deu errado em algum momento da escrita e que ninguém notou antes de publicar. A impressão que fica quase até o fim é que Mvelo, no fim das contas, fora apenas o gatilho para a história real que Ntshingila estava tentando contar.

O que ela queria contar mesmo é a história dos conflitos entre brancos e negros, entre negros e negros, entre os seres humanos e o HIV, entre as mulheres e a liberdade que nunca tiveram. Há muitas questões importantes que são pontos de reflexão neste livro, que abrem debates também importantes ainda nos dias de hoje. A história se passa nas décadas de 1990/2000, o que significa que não está tão longe assim do que conhecemos hoje. O patriarcado ainda está aí, mulheres reproduzindo discursos patriarcais sem saber também, e, principalmente, homens que se acham donos de mulheres simplesmente por terem um órgão balançando entre as pernas. Homens que confundem abraço com “quero transar” e homens que se doem quando usamos a palavra “patriarcado”. É dolorido sentirmo-nos na pele de Mvelo e de Zola em muitas situações.

Em contraste com esse sentimento e de forma bem executada, Futhi Ntshingila narra os acontecimentos com destreza e sutileza. Ela nos engana ao nos fazer pensar que estamos prestes a ver outra tragédia se desenrolar para, então, nos presentear com a mulher vencendo. O problema disso tudo é que, em determinado momento, a história fica tão leve que a narrativa se perde em meio a uma novela mexicana digna de ser reprisada no SBT por anos a fio. De repente, sentimos que uma história que começou extremamente adulta se tornou infantil, com soluções tão mirabolantes que até Paola e Paulina se surpreenderiam.

O fato é que o livro começa no topo da escada e termina no primeiro degrau. Uma pena. No entanto, fica aqui a indicação para quem gosta de sair do eixo comum de leituras (que geralmente se resume a Estados Unidos, Reino Unido e Europa) e para quem tem interesse em saber um pouquinho mais sobre a África do Sul.


Livro lido para o projeto Epifanias Continentais, da @epifaniasliterarias_ .


Editora: Dublinense

Tradução: Hilton Lima

Páginas: 160

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