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Não sigo de volta

E por que isso não deveria importar

De vez em quando, gosto de analisar quem eu sigo no Instagram e se vale a pena continuar seguindo essas pessoas. Faço isso porque, por mais fútil e estranho que isso possa parecer, eu fico muito chateada quando não consigo acompanhar o conteúdo de todo mundo. É lógico que entre as pessoas que sigo estão familiares e amigos, mas também sigo muitos produtores de conteúdo. Se o produtor está produzindo e eu não estou consumindo, o resultado é negativo para ambos, já que os posts não chegarão até mim com prioridade e eu não vou estar ajudando essa pessoa a crescer. (Há quem ache que crescimento está diretamente relacionado aos números, mas essa ideia está um tanto quanto ultrapassada, sinto dizer).

O “problema” começa a acontecer quando noto que as pessoas param de me seguir de volta quase que imediatamente após eu ter clicado no botão “parar de seguir”. Elas têm todo o direito de fazer isso, obviamente; cada um age de acordo com o que acredita ser certo. Se meu conteúdo não faz diferença para elas, faz sentido que elas parem de me seguir também. Mas aí vem a pergunta: por que, então, essa pessoa não parou de me seguir antes? Era medo que eu fosse parar de seguir de volta? A resposta é: provavelmente sim. (A outra resposta possível é: só parou de te seguir porque você parou de segui-la; imaturidade pura).

O Instagram mudou muito ao longo dos anos, mas o que não mudou foi o ego das pessoas. É natural, todos temos egos e eles às vezes se tornam insuportáveis (o meu, pelo menos, dá vontade de afogar de vez em quando). E sabe o que também não mudou? As pessoas enxergam não apenas o outro como um número, mas a si mesmas. Se o fulano parar de me seguir de volta, significa que eu vou ter menos números para mostrar para as editoras; significa que meu trabalho não é bom o suficiente para chamar a atenção de alguém. Por isso, não paro de seguir fulano e mais 307 outras pessoas que não curto porque não quero perder 307 seguidores. Estou falando por experiência própria, aliás, que isso fique bem claro.

Quando comecei meu Instagram literário, eu não fazia ideia do que fazer para conseguir seguidores. Fui pelo caminho que eu achava ser o mais fácil: comecei a seguir todos os perfis literários que o Instagram me sugeria para ser seguida de volta. Funcionou por um tempo, até que eu percebi que ninguém estava nem aí para o que eu estava publicando; as pessoas me tratavam exatamente como eu as tratava: como volume para a parte numérica lá do meu perfil. E sabe o que mais fui reparando conforme o tempo foi passando? Que eu não tinha mais vontade de rolar meu feed e ver o que as pessoas estavam postando, pois nenhum dos livros que ali apareciam eram do meu gosto. Os livros pelos quais eu me interessava mesmo não estavam nos perfis que eu seguia porque eu não tinha aplicado critério algum. Eu não olhei para mim mesma como consumidora, eu olhei para mim mesma como uma pessoa que deixou o ego falar mais alto e quis um monte de seguidores acima de tudo. Foi nesse momento que comecei a repensar quem iria para a minha lista de “seguindo” e filtrando o que eu queria ver.

Passado algum tempo e depois de muitos altos e baixos com a plataforma, também comecei a aprender como o algoritmo do Instagram funciona. Fiquei chocada ao descobrir que dar o seu melhor em uma publicação é apenas uma fatia pequena do processo. O algoritmo também leva em consideração o que o seu seguidor curte, com que publicações ele interage, as pessoas que ele segue (e mais alguns fatores dos quais não vou me lembrar agora) para entregar seu post ou não para tal seguidor. Vamos supor, então, que eu curta várias fotos de livros eróticos, por exemplo, apenas porque quero ajudar e incentivar uma pessoa que está começando nesse mundo. Da próxima vez que eu entrar no Instagram, o meu feed vai estar praticamente cheio de fotos de livros eróticos, já que o Instagram entendeu que esse é o tipo de conteúdo que quero receber. E estaria tudo bem se eu lesse livros eróticos e fosse a única coisa que eu consumisse, mas sabe aquele perfil maravilhoso que fala sobre ficção científica e que fez uma publicação incrível que eu provavelmente amaria? Então, ele não vai aparecer para mim porque o Instagram entendeu que eu gosto mais de livros eróticos. Logo, estou vendo o que não quero ver e ainda prejudicando um perfil que nada tem a ver com isso, simplesmente porque não fui sincera no meu engajamento. Sabe aqueles perfis que você olha e fala: não sei como não tem mais gente seguindo essa pessoa e por que esse post não teve alcance? Então, isso é consequência desse “quero ajudar” (e um dos motivos pelos quais também sou um pouco hesitante quanto a grupos de interação, já que ajudam de um lado e prejudicam de outro).

Antes que este post fique mais longo do que eu pretendia, o que eu quero dizer com tudo isso é: não faz sentido você seguir alguém “só para ajudar” ou porque a pessoa tem poucos seguidores ou porque “num país como o Brasil, é bom mostrarmos apoio”. Esse tipo de apoio não funciona nem para a pessoa que você quer apoiar nem para você. Esse tipo de fala é uma máscara para: não quero perder seguidores, então também não paro de seguir. Esteja presente nos perfis que você curte, mas PORQUE VOCÊ CURTE DE VERDADE. Se você consome o que você quer consumir, a pessoa te seguir de volta ou não fará pouquíssima diferença, se é que fará alguma. É o seu público alvo que deve curtir seu conteúdo, lembre-se sempre disso. E se você não souber qual é o seu público alvo, concentre-se na pergunta: por quê? Por que eu faço isso? Se você souber responder o motivo de seu projeto, também terá a resposta para quem é seu público alvo. Tendo a resposta sobre o seu público alvo, você vai ver que o “seguir de volta” não deveria importar nem um pouco.

Sigo esperando que essa utopia um dia seja alcançada. Enquanto isso, faço posts no blog e espero não ser cancelada.

O caminho é longo. Foto autoral, tirada em Giant’s Causeway, Irlanda do Norte.

Autor:

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

2 comentários em “Não sigo de volta

  1. Eu sempre estou revendo aqueles que sigo. Levo em conta consumir o conteúdo da pessoa e interação. Todos os que manhtenho lá se enquadram nessas “regras”. E isso que vc falou sobre nao bastar fazer um post legal. Depende mais do que os seguidores estão vendo e curtindo do que aquilo que compartilhamos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu te tô fazer o mesmo, Alê! Não faz muito sentido, na minha opinião, seguir alguém só por educação ou sei lá o quê. Talvez eu esteja sendo um pouco extrema, mas acho importante a gente discutir isso. O mundo virou egocêntrico demais; ninguém está mais afim de aprender com o outro como objetivo principal.

      Curtido por 1 pessoa

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