Luz em meio ao caos

Estamos vivendo em um universo paralelo, isso é um fato. Em algum momento, atravessamos alguma barreira invisível enquanto a Terra girava e acabamos em um lugar onde não pertencemos. Sabe esse monte de gente antivacina e bolsonarista? Então, essas pessoas são parte deste universo novo; as pessoas do nosso mundo ficaram lá no nosso mundo original, criando uma outra linha do tempo.

Esta é a minha explicação fantasiosa para toda a falta de humanidade porque só a ficção consegue me impedir de querer dormir até que as coisas estejam resolvidas; só a ficção me faz abrir os olhos de manhã e falar: tá ruim, mas ficar deitada só vai fazer piorar.

E, bom, na ficção eu conheci Monica Reyes que, além de me trazer amigos para a vida, também me apresentou à pessoa que a interpretava. Sabe uma pessoa cheia de luz? Essa é Annabeth Gish. E é bem fácil falar quando estamos separadas por uma tela, uma distância territorial gigante e vidas completamente distintas. Muitas pessoas me dizem que preferem não conhecer seus ídolos para não desfazerem a ideia perfeita que fazem deles, mas eu sou adepta do “VEM CÁ ME DAR UM ABRAÇO”. Não é segredo para ninguém que eu já viajei muito (e comi muita salada de mercado) apenas para conhecer pessoas que me inspiram. O interessante é que, desde 2001, nunca tive a oportunidade de conhecer Annabeth Gish. O sonho foi sempre ficando para depois para que outras coisas pudessem ser concretizadas.

E que estranho é o fato de que justamente na época em que abraçar pode custar uma vida esse sonho tenha se realizado em partes. Uma Comic Con online, um chat de dois minutos que se transformaram em quatro, um pacto: você mostra os seus escritos para o mundo que eu vou fazer o mesmo. O começo de uma percepção: eu posso, eu consigo, eu vou atrás.

Desde então, entrei para um grupo de escritores, enviei dois contos para editais, publiquei meus textos mais curtos no Instagram e até declamei dois dos meus próprios poemas sem ter vergonha. Eu também criei uma campanha de apoio ao meu trabalho e uma categoria dentro dela em que as pessoas têm um texto meu como recompensa. Quem diria que esta seria a categoria na qual tenho mais apoiadores? Uma conversa de quatro minutos com uma pessoa cheia de luz me fez dar um passo enorme em meio a um limbo de depressão e de dias cinzentos, me fez enfrentar os meus dias mais difíceis apenas dizendo palavras de incentivo.

E, então, pulamos para maio do ano seguinte, um ano em que a humanidade parece estar sendo vencida por aqueles seres do universo paralelo onde viemos parar, um ano em que viver cada dia sem uma crise de pânico é uma vitória. Neste ano, Annabeth participa de um painel na mesma Comic Con, mas, desta vez, falando sobre seu papel em outra série. Uma pergunta vem de uma fã para o elenco de tal série: se vocês fossem fantasmas, como vocês assombrariam as pessoas? A resposta de Annabeth? Que ela seria um fantasma do bem, que ela cochicharia no ouvido das pessoas palavras de incentivo quando elas estivessem passando por momentos difíceis. Eu seguro as lágrimas.

Seguro até o momento em que Annabeth aparece novamente na minha tela ao vivo, empolgadamente me dando oi com ares de reconhecimento. E, então, eu digo a ela: você é o meu fantasma do bem da vida real. Ela quer que eu repita como forma de incentivo para ela também. A gente conversa, mas também é cortada pelo cara chato da Comic Con que não deixou que os dois minutos fossem mais que isso. Fiquei sem screenshot bonitinho e provavelmente não vai ter nenhum momento no vídeo em que as duas estão sorrindo para a câmera para que eu mesma possa tirar esse screenshot. Mas teve uma promessa dela de continuarmos a conversa no Instagram para que minha pergunta não ficasse sem resposta. Teve um “estou muito orgulhosa de você” e também teve um “antes de qualquer coisa, eu preciso falar: seu cabelo é maravilhoso!”. Teve uma humanidade da qual eu estava sentindo falta.

Neste mundo virtual em que todos se acham celebridades, quem responde a comentários é visto como uma pessoa diferente e quem retribui o carinho que recebe é visto como excepcional (ainda me assusto de pensar que uma vez perguntei nos meus stories o que as pessoas achavam que era o meu diferencial como produtora de conteúdo e a grande maioria respondeu: você conversa com a gente), em um mundo louco como esse, quando encontramos pessoas como Annabeth é como um abraço quentinho, um alento, uma nesga de esperança. É como encontrar o ser humano da Terra em que deveríamos estar.

Por um mundo com mais pessoas como ela. Por um mundo em que possamos ser inspirações uns dos outros. Por um mundo com pessoas que se lembrem como ser pessoas.

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