De volta para os anos 80

Pequenas resenhas dos meus minicontos favoritos

De volta para os anos 80 é uma coletânea de 35 minicontos escritos pelos alunos do curso Formação de Escritores da Metamorfose, que, como o título deixa claro, tratam de algum assunto relacionado aos anos 1980. Já fiz um post no meu Instagram sobre o livro, mas achei que os meus favoritos mereciam um pouco mais de espaço. Portanto, abaixo estão minhas considerações sobre cada um desses títulos:

Funcionário padrão

Ana Helena Reis

A inflação da época do governo Sarney é o grande tema deste conto, que se passa dentro de um supermercado enquanto as mulheres tentam fazer a compra do mês. O grande vilão aqui é o funcionário do título, que vem com sua maquininha de remarcar preços, a todo vapor, em direção às mercadorias. O conto de Ana Helena Reis me fez pensar sobre os pontos de vista e sobre o que temos de fazer para simplesmente sobreviver. Existe alguém errado nessa história toda além do próprio governo?

Além do infinito

Camila Beltran

Quem nunca quis ser paquita da Xuxa que atire a primeira pedra. Ou, pelo menos, que atire a primeira pedra quem nunca sonhou que sua cartinha tivesse a sorte de cair nas mãos da apresentadora, dentre as milhares que ela jogava para o alto. O conto de Camila Beltran nos transporta vividamente para a atmosfera desses sonhos, descrevendo as calças fuseau e a disputa pela televisão. Além disso, há um tópico sobre o qual eu nunca havia pensado até ler o conto, talvez por nunca ter, de fato, achado que poderia me tornar paquita: as escolhidas eram sempre brancas e loiras. Fiquei alguns dias pensando nessa história não só pela nostalgia, mas também por conta dos sonhos que ficaram pelo caminho por terem apenas a ver com uma sociedade racista.

Até quando?

Flávia Longhi

O conto de Flávia Longhi é curto e forte, uma narrativa sobre a tortura que muitos dizem não ter existido. O relato é feito em primeira pessoa e as falas das outras pessoas envolvidas são bem construídas. Sentimos o choque de cada uma delas. A reflexão é justamente o título: até quando?

Voo

Leney Veloso

Talvez o meu conto favorito desta coletânea. Eu sou apaixonada por histórias narradas do ponto de vista de personagens não-humanos, e Leney soube trazer um carrinho de rolimã à vida de uma forma muito gostosa e tocante. Senti até o vento levantando meus cabelos.

Não identificado

Luiz negrão

Como boa amante da vida extraterrestre fictícia, este conto parece ter sido escrito para mim. Luiz Negrão conta a história de uma esposa que está preocupada com seu marido, capitão da Força Aérea, que voltou do trabalho e não acordou mais. A tensão é construída de uma forma bem fluida e quase fantástica, levando ao meu tipo preferido de final: aquele em que tudo é revelado na última frase. Mulder certamente adoraria investigar este caso.

Em chamas

Marina González

Uma espécie de retrato de Porto Alegre e alguns de seus habitantes, Em chamas narra os pensamentos e ações de uma mulher escritora durante um incêndio no prédio em que mora. A pitada de humor que Marina coloca em suas palavras é o ponto alto da história, já que, sim, eu também salvaria meus manuscritos e, não, também nunca entendi por que as mulheres colocavam collant por cima dos shorts para as aulas de aeróbica. Há ainda algo de profundo na reflexão final, que traz à tona a boa e velha pergunta: se eu morresse hoje, morreria satisfeita com o que fiz ou deixei de fazer?

Subversão

Rosane Rommel Cardoso

Este conto é o que parece pelo título e, ao mesmo tempo, não. Por meio de uma metáfora muito incrível, um pai responde à pergunta de sua filha sobre o que aconteceu com sua mãe. É a história de um jardim e também a história da História. A escolha de palavras foi certeira para evocar imagens e sentimentos.

No vale da morte

Sarah Alves

Um taxista está à espera de um passageiro e reflete sobre o lugar onde mora em 1984 – o chamado “vale da morte”. A tensão é construída a partir do momento em que um passageiro entra e pede para ser levado até à Vila Socó, palco de um incêndio sem precedentes (e que pode ser inferido pelo texto, mesmo que a pessoa que lê não conheça os fatos da tragédia). A atmosfera sombria que se assemelha à de filmes dos anos 80 é o destaque deste conto.

A fugitiva

Valéria Machado

Um conto sobre sonhos e a vontade imensa de realizá-los. Uma história que poderia ser como a de qualquer adolescente, mas com um fator que me deixou com um quentinho no coração. Às vezes, ter possibilidades de fins é muito melhor do que finais totalmente fechados.


Caso tenha interesse em ler este livro também, ele pode ser encontrado no site da editora ou com os autores. Recomendo a Marina González ;).

Publicado por E.T.S

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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