A verdade está no quarto

[Conto originalmente escrito como exercício em uma de minhas lives de escrita lá na Twitch. Editado para melhor compreensão (ou não)].

Prompt: Comece o texto com a frase “Ele se manteve completamente parado à medida que os passos ficavam mais altos.”


Ele se manteve completamente parado à medida que os passos ficavam mais altos. Xingou em pensamento a lei de Murphy. É óbvio que bastaria ele tomar a decisão para que algo assim acontecesse!

Segurou a respiração, como se isso fosse impedir que a porta que agora estava sendo aberta batesse nele. Ele até já previa os próximos momentos: a porta batendo em sua barriga protuberante, o grito da mulher, a polícia chegando, ele sendo levado naquele camburão no qual já havia entrado tantas vezes antes. Havia jurado que nunca mais passaria por essa vergonha, pela humilhação de passar em frente aos vizinhos que antes o julgavam bom demais para sequer ser questionado pela polícia e que, agora, atravessavam a rua quando o viam. Não adiantava explicar que era por uma boa causa.

Ninguém via o que estava acontecendo, mas ele via. Ele sempre tivera essa espécie de sexto sentido para energias malignas, uma explicação certeira para tudo o que havia de errado no mundo. Era uma pena que nunca conseguira provar, principalmente por ser azarado demais, desastrado demais.

Passou as mãos ao redor do corpo e protegeu a barriga, esperando o impacto. Aliás, por que a porta ainda não o atingira? Percebeu que, enquanto se perdia em pensamentos, quem quer que estivesse entrando mudara de ideia no meio do caminho. Mas por quê?

“Estou aqui pelo mesmo motivo que você”, disse uma voz em sua cabeça.

Ele riu em pensamento.

“Ah, então você também está grávido de um ser do espaço e ninguém acredita em você?”

Não houve resposta e ele considerou a hipótese de realmente não estar em controle de suas faculdades mentais. Afinal, aceitara fácil demais alguém falando com ele por meio de telepatia.

Sentiu uma pontada na barriga: um chute de dentro para fora. Já estava acostumado com as mexidas esquisitas, as acrobacias que a criança híbrida fazia dentro dele, mas nunca havia sido tão forte. Sentou-se para tentar aliviar a dor e, quem sabe, convencer o parasita dentro de si de que não era uma boa hora para demonstrar mais uma de suas habilidades. A cabeça latejou um pouco enquanto ele esticava as pernas, depois doeu como se alguém tivesse cravado algo muito pontudo nela.

“Não precisa ter medo, deixe a dor te levar” – era a voz novamente.

A tontura veio enquanto ele tentava balbuciar, dessa vez em voz alta:

“Ela é a responsável… no quarto há provas.”

“Ah, sim, há muitas provas”, disse a voz em sua cabeça novamente.

E, então, ele apagou.

Quando acordou, seu primeiro instinto foi levar uma das mãos à barriga. A surpresa foi grande quando sentiu que o abdômen estava tão reto quanto estivera antes de a mulher que se apresentara como Márcia aparecer em sua vida. A surpresa foi maior ainda quando ele levantou os olhos e viu que Márcia estava em pé, em frente a ele, com os braços cruzados e um sorriso maligno no rosto.

30/08/2021

Publicado por E.T.S

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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