Chaminé abaixo

Interrompo a postagem em ordem cronológica para publicar um miniconto propício para a época, que escrevi na minha mais recente live de escrita na Twitch. Espero que seja uma boa leitura!

Uma mulher de 40 anos não deveria acreditar em Papai Noel, disso eu sei. Mas como eu poderia deixar de acreditar, entrando ele todas as noites do dia 25 de dezembro pela minha chaminé? No começo, achei estranho, mas depois me acostumei com as visitas. Começaram quando eu fiz 25 anos, pouco depois que fiz aquela viagem com os meninos para “encontrarmos quem verdadeiramente éramos”. Foi tanto chá de ayahuasca que eu confundi o Papai Noel com um alienígena.

Pois bem. No ano seguinte, ele veio de novo. Dessa vez, em vez de descer pela chaminé como no ano anterior, uma luz desceu sobre meu quarto antes de ele aparecer, mas eu havia ficado doente e não havia nada no meu sangue que pudesse demonstrar alucinação. Nem febre eu tinha!

Eu fiquei lá, feito uma estátua na cama, enquanto ele sorria um sorriso cheio de dentes para mim, com aquele saco nas costas como se eu fosse alguma criança. Em vez de descer e deixar o presente debaixo da árvore, deixou-o ao meu lado na cama e, da mesma forma que apareceu, desapareceu. A luz foi tão ofuscante que fiquei uns 3 minutos tentando recuperar minha visão novamente.

Já estava voltando a dormir quando um alarme soou bem perto de mim, e percebi que vinha de dentro da caixa, que agora se mexia como se minha cama fosse vibratória. Abri correndo, com medo de acordar os vizinhos, mas, lá dentro, não havia despertador. Na verdade, não havia nada. A caixa estava vazia.

Fiquei um tempo parada, olhando para ela, mas depois desencanei e voltei a dormir. Guardei-a no guarda-roupa só por via das dúvidas.

Hoje, então, será o dia de adicionar a 15ª caixa vazia à minha coleção. Nunca contei a ninguém sobre isso, nem nunca desconfiaram das minhas desculpas quando não queria passar a ceia de Natal na casa de alguém. Os namorados e namoradas que já foram íntimos o suficiente para abrir meu guarda-roupa às vezes me perguntaram sobre o fato de eu ter várias caixas iguais, mas eu sempre dizia que era para o caso de esquecer de comprar papel de presente. Nenhuma dessas pessoas nunca questionou o fato de não receberem presentes embrulhados nelas; provavelmente se sentiam até mais importantes por eu nunca esquecer de comprar papel de presente.

Ouço barulhos vindo da chaminé e olho no relógio: ele está um pouco atrasado, mas quem não se atrasa hoje em dia, né?

Os passos que ouço no corredor me fazem me mexer na cama, me arrumando para o grande encontro.

A porta se abre e, de repente, vejo uma rena me encarando. Ela está com os olhos vermelhos, mas não por conta do vento que enfrentou desde o Polo Norte. Dá para ver que ela já chorou muito.

Ela respira fundo e finalmente me diz:

— O Papai Noel morreu.

Ela desaba, como se eu tivesse tirado o chão de debaixo dos pés dela, caindo sobre as quatro patas e deitando como se não houvesse mais esperança para ela. O que eu devo fazer? Como se conforta uma rena? E que história é essa de o Papai Noel morrer?

Eu vou até ela e me sento ao seu lado, fazendo carinho em suas costas. Ela me olha agradecida e eu até tenho medo de estragar esse momento singelo, mas preciso saber:

— Como foi que ele morreu?

Ela soluça mais uma vez, limpa o focinho com uma das patas, depois tenta olhar para mim novamente.

— Atiraram nele!

Que horror! Se não têm respeito nem pelo Papai Noel, vão ter respeito por quem?

— E você sabe quem foi? — digo em uma voz baixa, ainda incrédula.

A rena balança a cabeça.

— Foi a roupa dele. Já tinha falado milhões de vezes pra ele se modernizar, tentar achar um azul, sei lá, ou até um preto; sabe que preto combina com tudo, né? Mas não. Ele insistiu a continuar a usar vermelho e branco, mesmo vindo para o Brasil.

Ela deita novamente a cabeça no chão enquanto eu de repente entendo tudo: foi aquela corja de extrema direita.

— Filhos da puta! — é tudo o que consigo responder.

Penso, então, na caixa que não vou receber. Será que, se eu não a abrisse dessa vez, a Esperança ainda estaria guardada? Pois, agora que penso nisso, passo a ter outra certeza: todas as caixas que abri nos últimos 15 anos foram caixas de Pandora. O Papai Noel só precisou morrer para que eu entendesse.

Publicado por E.T.S

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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