Quadro de funcionários

Texto produzido em uma de minhas lives de escrita lá na Twitch. Não me lembro mais da prompt que o inspirou. O miniconto (?) foi editado para melhor compreensão.

Faz apenas 3 meses que ele entrou na empresa, mas já sabe que terá alguns obstáculos à frente se quiser chegar a algum lugar.

— Já fez o café, Jorginho?

Ele sorri com todos os dentes possíveis para o colega que fez a pergunta maldosa, mas por dentro ele está explodindo. Não quer ser visto como o secretário do chefe só porque faz seu trabalho direito. Mas é melhor não dizer nada. Aprendeu com a mãe que o melhor é sempre abaixar a cabeça e deixar que os outros lidem com a própria consciência quando ela pesar.

Mas será que a consciência de alguém ali pesa?

Em um escritório dominado por homens, ele já presenciou mais falas e atos machistas do que já havia vivenciado antes, e isso o faz pensar que não, ninguém ali tem consciência de nada.

Será que só ali ou em todas as empresas do mundo?

A bolha em que cresceu parece ser estourada bem aos poucos, como se ela fosse feita daquele material de colchões infláveis e cada pessoa que passasse por ele a furasse com uma agulha. Ele era cheio e, agora, está ficando murcho.

Jorge se ajeita na cadeira para voltar a digitar o relatório; o chefe o quer para às 10h e já são 9h30. Precisa correr.

— Aceita um pão de queijo, Jorginho?

O colega para à frente de sua mesa, um sorriso zombeteiro no rosto, mastigando de boca aberta como se fosse um homem das cavernas.

Ele quer gritar que seu nome é Jorge e que ninguém nunca o chamou de Jorginho antes.

Em vez disso, abre meio sorriso e volta seus olhos novamente para o computador para mostrar que está ocupado.

— Obrigado, César. Já tomei café da manhã.

César ri.

— Eu tô aqui pensando, cara. Nunca vi você fazendo nada que desviasse um tiquinho assim das regras que fosse. Isso tudo é amor pelo chefe?

As bochechas de Jorge queimam e ele tenta não olhar para César, que agora se debruça sobre o monitor do computador e deixa cair migalhas de pão de queijo sobre o teclado de Jorge.

— Aiiiii ficou vermelho! – César tira sarro mais uma vez – Será que eu tô certo, então? Cê é apaixonado pelo chefe, Jorginho?

Jorge congela os dedos sobre o teclado, esperando que com aquela simples ação César vá embora.

Mas, obviamente, não funciona.

Diz a si mesmo em pensamento: não vale a pena arranjar confusão. Ele provavelmente faz isso porque, algum dia, alguém fez isso com ele. É o ciclo do bullying e Jorge prefere ser a pessoa que quebra o ciclo.

Respira fundo. Olha novamente para César.

— César, desculpa não poder te dar atenção agora, cara, mas é que eu tenho que entregar esse relatório para o Carlos até às 10h. O cliente só me entregou os dados faltantes há 10 minutos, então tenho pouco tempo. Na hora do almoço a gente conversa, pode ser?

César dá outro riso zombeteiro.

— Tudo bem, puxa-saco. A gente se fala.

Pega uma caneta do porta-treco de Jorge – a única que está funcionando -, se vira e sai andando em direção à mesa de uma colega que, Jorge percebe, de repente fica tensa. Por um segundo, Jorge tem vontade de voltar a conversar com César para que ele deixe a pobre mulher em paz, mas sabe que não há nada que possa fazer.

Volta a digitar o mais rápido que pode e, às 9h59, consegue terminar o relatório.

Respira aliviado enquanto clica em “enviar” no e-mail com o relatório anexado.

Meio minuto se passa. O telefone ao lado do computador toca.

— Jorge – diz ele, com a voz mais profissional que consegue fazer depois do estresse da última meia hora.

— Jorge, Carlos aqui. Pode vir até a minha sala?

Fiz alguma merda, Jorge pensa.

Mesmo assim, a caminho da sala, consegue sorrir para os colegas que passam por ele e que o olham meio constrangidos.

Abre a porta e encontra Carlos sentado com um arquivo na mão. Reconhece o próprio nome estampado na primeira capa.

Carlos levanta os olhos e se ajeita na cadeira quando Jorge fecha a porta atrás de si.

Carlos começa a falar assim que Jorge se senta.

— Jorge, eu não gosto de enrolação e você sabe disso, então vou ser bem direto: a partir de hoje, você não faz mais parte do nosso quadro de funcionários.

Jorge fica tão espantado que sua maior reação é abrir um pouco a boca.

— Mas… – diz ele. O que ele quer mesmo é dizer que não tem sido nada além de um funcionário exemplar desde que chegou na empresa, mas mesmo agora as palavras lhe faltam. Deve haver algum motivo por trás da decisão do chefe.

Carlos respira um pouco antes de responder. O desconforto está no ar. Será que é isso que chamam de “o elefante na sala”?

— Jorge, você é um funcionário exemplar no sentido de seguir as regras. Chega antes do horário todos os dias, faz o café para que todos possam tomar, só faz uma hora de almoço, fica até mais tarde quando precisa terminar algo… Mas, sabe, toda essa passividade não faz bem para a carreira, entende? Precisamos de alguém mais assertivo, alguém que faça o cliente enviar os dados de que precisamos antes do prazo do envio do relatório, alguém que…

— Alguém que faça os outros passarem raiva para conseguirem o que querem.

A voz de Jorge é quase um sussurro.

— Talvez seja uma melhor maneira de descrever a situação, sim. Mas, olha, a sua bondade é louvável! Só queria que isso funcionasse com nossos clientes para não ter que despedi-lo.

Jorge assente e abaixa a cabeça. As lágrimas que cobrem seus olhos já não podem ser escondidas e não pode deixar que o chefe as veja.

Carlos continua:

— Pode arrumar suas coisas em paz. Quando estiver pronto, pode ir. O pessoal do RH vai te ligar para explicar a questão do desligamento e todos os trâmites necessários.

Jorge assente mais uma vez e se força a sorrir, ainda que as lágrimas ainda estejam ali, deixando seus olhos vermelhos por estarem aguentando tanta pressão.

Olha novamente para Carlos e estende a mão.

— Obrigado pela oportunidade, seu Carlos.

Carlos parece um pouco comovido ao retribuir o aperto de mão, mas Jorge não pode dizer mais se é isso mesmo ou se é apenas seu desejo de que isso seja verdade refletido no rosto do homem.

Jorge se vira e, antes de sair, ouve Carlos pegando o telefone para chamar César.

Ele sai da sala no mesmo momento em que o outro jovem se encaminha para ela. Será que hoje é dia de demissões gerais?

Volta para a mesa, desliga o computador e começa a empilhar seus poucos objetos dentro de um saco. Quando está terminando de arrumar tudo na mochila, a porta de Carlos se abre e de lá sai César, sorrindo como se fosse o dia mais feliz de sua vida.

Jorge põe a mochila nas costas e sai andando devagar, enquanto ouve Carlos na mesa de um outro colega:

— Fui promovido, cara!


Escrito em 13/09/2021

Publicado por E.T.S

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: