Assexualidade, arromanticidade e o serviço público prestado por Alice Oseman

A sociedade é obcecada por sexo.

Se você não faz ou se sexo não é quase uma prioridade na sua vida, provavelmente algum problema você tem.

Se você declarar que não se lembra da última vez que beijou alguém ou que sentiu vontade de estar num relacionamento (e não se lembra porque provavelmente a vontade nunca existiu), você precisa urgentemente se tratar, pois não é normal que uma pessoa não sinta vontade de estar com outra. Será que não são os remédios para a depressão que te deixam assim? Afinal, já diria Tom Jobim: “é impossível ser feliz sozinho”.

A gente cresce vendo amiguinhas se apaixonarem e os familiares inconvenientes perguntando sobre os namoradinhos (e os mais inconvenientes perguntando se não seriam namoradinhas, já que nada explica você estar sozinha, sendo bonita, independente e relativamente bem-sucedida — e como se houvesse algum problema se fossem, de fato, namoradinhas). Parece que tem medo de homem!, dizia meu avô, enquanto eu dava risada e pensava: existe alguma mulher que NÃO tenha medo de homem?

Mas essa não é a questão.

A questão é que a gente é ensinado desde sempre — sejamos homens, mulheres ou não-bináries — a buscar pelo amor romântico, por aquele momento que vai fazer nosso coração parar de bater e se encher com o coração do outro. A gente é ensinado que o ser humano está na Terra para nascer, crescer, se reproduzir e depois morrer, e que essa é a única forma de felicidade; a única que deve fazer sentido para todo mundo.

Então, a gente força o nosso próprio coração a se partir 400 mil vezes, pensando que a felicidade vai vir qualquer dia desses. Qualquer dia desses, a gente vai sentir o que todo mundo sente.

E aí a ficha cai: e se eu não for igual aos outros? Será que mais alguém no mundo se sente da mesma forma? Porque a gente acha tudo lindo na teoria — até shippa casais fictícios, lê sobre eles, escreve sobre eles, sente um quentinho no coração de ver aquele relacionamento. Mas, quando é com a gente, a coisa muda de figura. A gente simplesmente não consegue sentir nada além de “acho que sou uma ótima atriz; talvez eu deva considerar mudar de profissão”.

E talvez a gente demore demais para descobrir os termos “arromântico” e “assexual”. Talvez a gente demore metade da vida para entender que não é egoísmo não cumprir as expectativas que uma sociedade inteira tem da gente. A gente demora metade de uma vida para entender que aquele cara escroto que achava inconcebível a gente não ter transado ainda, mesmo tendo 27 anos, é apenas fruto da mesma sociedade que ele tinha tanto orgulho em dizer que não fazia parte dele.

Essa é, basicamente, a história da minha vida.

Por isso, quando me deparei com uma breve descrição no Twitter sobre o livro Sem Amor, de Alice Oseman, CORRI para comprar. Fazia tempo que eu não ficava ansiosa para ler um lançamento da forma como fiquei para esse.

E, felizmente, a obra não me desapontou nem um pouco.

Nas 477 páginas, acompanhamos a vida de Georgia, uma adolescente de 18 anos que sabe TUDO sobre romance na teoria, mas, na prática, é um pouco diferente. Ela não consegue sentir nada por ninguém, apesar de se esforçar muito. Vai ver que funciona assim com todo mundo, né? Vai ver que ela só nunca soube que todo mundo se sente assim antes de se apaixonar de fato. 

É só depois de encontrar Sunil, presidente da sociedade LGBTQIA+ da faculdade, que Georgia descobre o que significa a letra A da sigla e tudo começa a fazer sentido.

Apesar de Georgia não me representar totalmente, pois me encaixo em outra categoria de assexualidade, a compreensão que ela vai tendo de si durante a história me abraçou de tal forma que, às vezes, eu só queria ir atrás da autora e agradecer pelo serviço público prestado. Sabe aquele livro que você tem vontade de sair distribuindo para todo mundo? Então, esse foi um desses para mim.

E não que eu tenha necessidade que as pessoas leiam tudo o que acho bom, mas eu tenho uma necessidade muito grande de ser aceita. Tenho uma necessidade muito grande de que parem de tentar me arranjar um par. Tenho uma necessidade muito grande de que parem de achar que eu não sou feliz porque o meu jeito de existir, sobreviver e viver é diferente do delas.

Hoje, aos 35 anos, sei que sou arromântica assexual. Sou como a Ellis, personagem que aparece por pouco tempo em Sem amor (e da qual gostaria de saber mais): fui apenas vivendo sem me dar rótulos, até que, um dia, descobri que me encaixava em alguns deles.

No entanto, tudo teria sido MUITO mais fácil se, como Georgia, eu tivesse descoberto isso aos 18 anos. Talvez o fardo que levo sobre os meus ombros tivessem sido um pouco mais leves.

Por isso, recomendo a leitura para todo mundo, mesmo para aqueles que já estão cientes de quem são ou que já sabem aceitar que cada ser humano é único. É uma leitura leve, engraçada e perfeita para passar o tempo sem nem perceber o que está acontecendo ao seu redor. Tem dramas e tramas adolescentes? É lógico, as protagonistas são dessa faixa etária indefinida entre a adolescência e a fase adulta. Porém, não é fator impeditivo de leitura e muito menos algo que desmerece a obra, muito pelo contrário. Esse livro merece — e merece muito — elogios e divulgação.

Obrigada, Alice Oseman, por me ajudar e por me compreender. E obrigada por disseminar a palavra da assexualidade e arromanticidade em um mundo que tenta nos invisibilizar a todo custo.


Publicação: Editora Rocco

Tradução: Laura Pohl

Onde encontrar: https://amzn.to/3f5QRTz

Mais sobre assexualidade: https://docs.google.com/document/d/1Xf1qp33SMTg-d2qgWt-7cclWRJV3-Glw5O8imM3YQVQ/edit

Mais sobre arromanticidade e assexualidade: https://aroaceiros.com/

Mais sobre arromanticidade: https://www.aromanticism.org/pt/perguntas-frequentes#oq-aro

Publicado por E.T.S

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

5 comentários em “Assexualidade, arromanticidade e o serviço público prestado por Alice Oseman

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