Westworld – Um é pouco, dois é bom…

E talvez três seja mesmo demais.

Imagem: HBO Brasil

Westworld é uma série instigante sobre um aparente clichê da ficção científica: inteligências artificiais ganhando consciência e se rebelando contra a horrenda raça humana. É fácil de se identificar com as personagens que vivem neste lugar fictício chamado Westworld que, para eles, é a realidade. Os anfitriões, como são chamadas as inteligências artificiais em formato humano, são reiniciados e têm sua memória apagada a cada vez que são mortos. Os anfitriões, afinal, foram construídos justamente para satisfazer os desejos mais obscuros dos humanos, conhecidos como convidados – transar a torto e a direito, matar, torturar, estuprar. Não há como não torcer para os anfitriões, desejar que eles acabem com essa gente nojenta que se diz real de uma vez por todas. Não há como não se chocar com algumas reviravoltas (ainda que outras sejam bem previsíveis). Não há como chegar ao fim da primeira temporada sem perceber que se está diante de uma produção quase perfeita.

A segunda temporada, apesar de desnecessária, desenvolve um pouco mais os ganchos deixados em alguns episódios da temporada anterior e explica algumas coisas para que o final faça sentido. Não que tudo faça sentido de verdade; há algumas falhas, algumas incongruências e até contradições, mas não precisamos prestar tanta atenção assim. A temporada é boa, mesmo que não tão boa quanto a primeira, e também dá a ideia de que uma conclusão naquele ponto específico seria perfeito.

Se ao menos tivessem pensado na expressão “Um é pouco, dois é bom e três é demais” antes de assinarem contratos! Porque a terceira temporada chega para tirar o trem dos trilhos de vez.

Eu costumo dizer que séries com mais de 5 temporadas têm mais de uma fase, de um ciclo, por assim dizer. Não que depois de 5 temporadas elas não continuem boas, mas o rumo muda e tudo fica muito diferente. Para Westworld, esse momento veio bem antes.

Com um enredo quase completamente diferente das outras temporadas (ainda que explicável, devido ao rumo dado pela segunda temporada), a série fica morna, meio que parecendo que perdeu o propósito. Os quebra-cabeças que tínhamos que montar nas temporadas anteriores não estão ali, os episódios não são mais empolgantes, Dolores (personagem principal) se torna insuportável e até o humano mais terrível de todos – William – se torna um personagem sem sal. Menção honrosa para o episódio com o presidente do Brasil que fala português de Portugal e que tem a mesa posta com frutas em uma reunião de negócios (frutas sobre as quais voam moscas, obviamente, porque é exatamente assim que acontecem as reuniões no Brasil). Tal episódio, aliás, não fez diferença alguma para o restante da história.

Demorei 4 dias para ver o penúltimo episódio porque ele estava sendo melhor do que Clonazepam e melatonina tomados em conjunto para mim. Não aguentava mais e praticamente pulei de alegria quando finalmente cheguei ao episódio final. Depois de assisti-lo, minha reação foi: pelo amor da deusa, alguém acaba com essa série antes que seja tarde demais!

Mas aí descobri que Westworld foi renovada para a 4ª temporada.

Uma série que tinha tudo para dar certo e teria dado, tivessem as pessoas envolvidas sabido a hora de parar.