O cocô do cavalo do bandido

O cocô do cavalo do bandido voou e foi parar no cérebro da moça que nada tinha a ver com a história. Uma artista em corpo de professora mal paga e completamente desvalorizada em todos os sentidos. E, de pensar tanto em sua impotência, acreditou ser incapaz. Invisível. O sonho era grande e ela estava disposta a voos altos. Não tinha medo da queda, nunca tinha tido. Mas, agora que o cocô do cavalo do bandido havia se misturado ao cérebro, ela sentia como se já tivesse caído; a queda havia quebrado todos os seus ossos e ela, mais uma vez, estava impotente, incapaz. E invisível. As pessoas ao seu redor a olhavam – quando olhavam –, mas não ajudavam a remendar seus ossos. Não chamavam um médico, não paravam para ajudar, não achavam que ela merecia. Afinal de contas, há tanta gente no mundo para ser ajudada, por que razão ela seria uma delas? Ela não podia se esquecer: era o cocô do cavalo do bandido e as pessoas a tratavam como tal.

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Dias cinzentos

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Dias cinzentos; os mais difíceis de todos.

Tecnicamente, nada muda; a rotina é a mesma.

Acordar, tomar café, trabalhar; um cinza daqueles que não sabe se quer ser claro ou escuro.

O cinza lá fora; o cinza aqui dentro.

Tomada por SAD; mas não necessariamente tristeza.

Só o desejo de que haja sol; de que o mundo volte a ser o que era.

Sonho com aglomerações, com um mundo sem máscaras; um mundo com risadas visíveis.

É difícil ver através do cinza que encobre a humanidade; um cinza fascista.

Fascista; machista.

Agora existe estupro culposo; somos culpadas de tudo, afinal.

Sociedade feudal; patriarcal.

E ainda me pedem para ver o copo meio-cheio; cheio de ódio, só se for.

Não dá para ver o sol se pôr; nem dá para ver o amor.

Que versos ridículos; queria tê-los guardado dentro de mim.

Mas se eu guardar, explodo; explosões nunca são boas.

Melhor que sejam palavras-bomba; bomba de tão ruins, mas quem se importa?

Desde que não sejam bombas em forma de balas; ora em Viena, toda hora no Rio.

Olha a hora, já é quase noite; já dura mais de um século.

E nós aqui, na esperança de dias melhores; acreditamos em histórias da carochinha.

Melhor fechar a janela para não ver mais o cinza; não deixar o de fora entrar.

Mas, antes, um misto de laranja e lilás; uma promessa.

O sorriso dura poucos segundos, mas pelo menos existiu.

Ele existiu; eu existo.

Existirei.

Persistirei.

Amanhecerei.

Sobreviverei aos dias cinzentos.

A Doutora humana demais

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Será que é possível morrer de ansiedade? E não no sentido figurado, mas no sentido de estar lá, escrito na certidão de óbito: “Causa da morte: ansiedade”?

Respira. Para de pensar em morte. Nada é tão grave assim a ponto de você morrer. – pensa ela. Exceto os pensamentos que levam ao coração acelerado, o que já deve ter reduzido pela metade seu tempo de vida útil. – responde aquela voz ridícula dentro dela, aquela que sempre diz verdades quando ela não quer ouvi-las.

Ela respira mais uma vez, tenta dizer a si mesma que ela tem valor, sim. Ter um pedaço de papel para provar que alguém sabe de algo nem sempre quer dizer que a pessoa realmente sabe de algo. O contrário também é verdadeiro. Ela rola o feed mais um pouco, se depara com mais publicações inteligentes, rola ainda mais até encontrar uma que realmente vá fazer com que ela se sinta mal. Porque o intuito, afinal, é encontrar provas de que ela é uma fraude. Uma FRAUDE, com todas as letras em caixa alta para não haver dúvidas. Quando o feed já cumpriu seu papel de alimentar os pensamentos que aceleram o coração, ela muda para os stories. Ah! Agora sim é hora da humilhação! Olha essas pessoas com conteúdo de verdade, com Lives de verdade, com seguidores que também te seguem, mas que já deixaram claro que não gostam do seu conteúdo em comentários em outros perfis. Lógico, não disseram que não gostavam do seu perfil especificamente, mas é o que você concluiu com alguns emojis (ou com a falta deles). Vai ver é por conta de stories como os que você acabou de fazer. Aquela palavra que você usou naquele momento específico pode ter causado algo nelas, mesmo que você não tenha tido a intenção.

Pare. Apenas pare! – grita a outra voz dentro dela, a voz racional que ela nunca ouve. Largue esse celular agora!

Incrivelmente, ela obedece. Liga a TV, vai assistir a um episódio de uma de suas séries favoritas. Esquece do mundo virtual e se acalma com um mundo em que existem alienígenas, naves espaciais e vilões que sempre são derrotados. Ah! Como ela queria que os vilões dentro dela fossem derrotados! Se ela os chamasse de Dalek, será que ela acharia que era o Doutor regenerado? Será que acreditaria que pode, sim, derrotá-los? Talvez seja uma opção, acordar todos os dias se chamando de Doutora. A Doutora que não salva o mundo de alienígenas, mas que salva a si própria de pensamentos que a levam para o inferno. Um bom começo para uma história, aliás.




Números

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Números.

Somos mesmo mais que eles?

Uma avaliação com números não deveria valer mais do que mil palavras positivas.

Bom, se os números não me deixam em paz nem quando estou escrevendo um argumento contra eles…

É 0 a 5, 0 a 10, é 0 a 100. É 73 por apenas algumas letras trocadas. Insignificâncias que me diferenciam de um robô. Mas vai dizer isso para o dono da empresa! Ele certamente se surpreenderia com o fato de eu não ser um robô…

Algoritmo, autoestima, alto lá!

Uma coisa não deveria estar conectada à outra!

Conectada, outra palavra infeliz. Tão infeliz que parece um número.

4498, 4497, 4480. Nossa, o que eu fiz? Será que é minha campanha para conseguir comer que está afastando as pessoas? Será que as pessoas me querem apenas para que eu também seja um número para elas? Será que o que eu tenho a dizer não interessa? Será que eu deveria ficar calada para sempre? 

Para não ficar calada, silencio. Reflito. Respiro.

Conto até 10. Me irrito com a aparição até na meditação dessa maldição. Depois, dou risada.

Uma risada alta que atinge todos os cantos da casa. Minha casa física, onde finco os pés; minha casa-carne onde ficam meus pés.

Me aterro. Me lembro. 

Sou uma pessoa. Uma pessoa com 6 letras. 

Uma pessoa de letras. 

A arte do movimento

Às vezes acordamos mesmo desanimados com a vida. Não queremos fazer nada, os projetos que temos parecem, de repente, ter ficado idiotas demais, inúteis demais, ridículos demais. Tem dias em que não queremos sair da cama (se estiver frio, então, aproveitamos até a desculpa de que a gata não quer sair da cama e, por isso, não podemos abrir a escrivaninha para começar a colocar os projetos em prática). É tudo muito confortável. E aí nos sentimos ansiosos, pensando nos rumos que estamos dando para nossa vida, no quanto poderíamos estar fazendo e não estamos. Estamos à beira de um ataque de pânico quando nosso cérebro, este órgão magnífico e precioso, começa a funcionar sozinho. O cérebro sabe o que precisa fazer para nos tirar daquela sensação de marasmo que foi criada exclusivamente pela mente. Sim, a mente controla o cérebro, mas, na minha experiência, nem sempre.

Então nos levantamos, arrumamos a cama, nos trocamos, abrimos a escrivaninha. Automaticamente, pegamos nosso instrumento de trabalho, mas o intuito ainda não é trabalhar. É sábado, dizemos. Hoje é dia de descanso. Abrimos o link daquele painel online daquela Comic Con online que conseguiu se adaptar muito bem aos tempos do novo normal, assistimos, rimos, fechamos o site. Só que, depois, em vez de clicarmos no menu iniciar e depois em desligar, nos pegamos abrindo nosso e-mail, nos lembrando de que quanto antes o trabalho for entregue, melhor. E, realmente, o alívio que nos dá ao clicarmos em “enviar” é quase uma puxada de ar bem funda. É revigorante. Então, lembramos daquele e-mail que prometemos enviar para as amigas e, de lá, lembramos do projeto desafiador no qual estamos trabalhando há meses. E, de repente, ele não parece tão desafiador quanto era quando acordamos. De repente, ele ganhou uma proporção tão positiva que a única coisa que queremos fazer é trabalhar nele. E é aí que percebemos a importância de simplesmente nos movimentarmos, literalmente falando. Ao nos movermos, algum tipo de mágica que provavelmente é explicada pela ciência acontece e faz com que realizemos tudo aquilo que vai ser bom para nós de uma forma não tão consciente. E mesmo que ao acordar tenhamos sentido a inutilidade da vida pesando sobre nós, entendemos que a melhor forma de fazer o que temos em mente é simplesmente começar de algum lugar. Eu hoje comecei me levantando.

A surpresa de não se surpreender

Foto originalmente publicada no naneandherbooks em novembro de 2019

Pego um lápis, o marca-texto, as flags. Abro o livro. Leio duas frases. Marco o uso da palavra naquele lugar específico, me pergunto o que aquilo quer dizer. Leio mais alguns parágrafos, vejo que a cena muda abruptamente. Paro. Volto. Vejo onde exatamente a mudança aconteceu. Vejo que o autor jogou uma pista ali. Marco a pista ou a deixo quietinha no fundo da mente para consulta posterior. Marco a ausência de nomes, a presença deles, marco as críticas sociais, marco as frases que curti. Vou angariando mais pistas, riscando mais a cada momento, quase uma detetive, mesmo. É isso que dá ficar vendo a mesma série por mais de 25 anos.

O ponto de clímax chega, a situação toda é explicada de forma a surpreender o leitor e eu… Bom, eu já tinha descoberto tudo porque não deixei passar nada. Controlei minha leitura assim como controlo minha vida: rigidamente, sem brechas para erros.
Não, não me sinto fodástica por ter “resolvido” um crime ou descoberto a intenção do livro desde as primeiras páginas. Me sinto uma burra de não me permitir ter a experiência que o autor pretendia que eu tivesse.

A literatura ensina e eu, talvez, tenha que me permitir aprender que nem sempre o lápis na mão quer dizer “ler com qualidade”. Às vezes, a qualidade está em justamente se deixar levar sem grandes pretensões. Essa é a graça. Da leitura e da vida no geral.

O papo do vovô

Imagem de skalekar1992 por Pixabay

Serra serra serra-dô, serra o papo do vovô!

E, então, tendo sido virada de ponta cabeça nas pernas dele que me amparavam com tanto cuidado, eu gargalhava.

Eram tempos felizes em que o mundo ainda não havia corrompido meus pensamentos, em que eu não sabia exatamente tudo o que tinha se passado na vida dele, na vida da minha mãe, na vida de todos os outros adultos envolvidos. Vidas sofridas marcadas pela tragédia da perda.

Tal perda às vezes se refletia na música que era trilha sonora nos almoços de natal, pois não consigo explicar o motivo de sentir tanta tristeza ainda hoje quando ouço No rancho fundo.

E, talvez, No rancho fundo seja também a trilha sonora de hoje, já que me traz tantas memórias daqueles dias de infância em que eu e meu avô ainda éramos próximos, daqueles dias em que ainda não sentia raiva dele por como ele tratava minha mãe, dos dias em que só via o lado bom das histórias e me deixava levar por serra-serra-serra-dôs.

Porque hoje meu avô morreu, sem mais nem menos. Hoje minha mãe chorou, meu tio chorou, eu chorei. Mas o meu choro é diferente.

É diferente porque é um choro egoísta de quem se sente mal por ter desejado que isso tudo acabasse, que a mãe fosse deixada em paz de uma vez por todas. O choro de uma pessoa que se considera boa, mas tem pensamentos extremamente ruins de vez em quando. É um choro de pesar por uma relação que nem eu, nem ele, cultivamos. Deixamos morrer o sentimento assim como as pessoas morrem: sem mais, nem menos. É um choro de: poderíamos ter feito mais um pelo outro.

Poderíamos. Futuro do pretérito. Condicional.

A morte tem dessas, de nos fazer pensar sobre tudo o que estamos fazendo e para onde estamos indo. Será que queremos morrer cheios de ressentimento? Será que morrer sozinho é melhor do que morrer com pessoas ao nosso redor? Será, será, será?

São tantos possíveis passados e futuros que fazem a cabeça rodar. O rodar da vida faz a cabeça rodar. E caímos, desorientados, pedindo para o chão parar de se mexer para que possamos levantar novamente. Mas ele não para. No máximo, diminui de velocidade. E, de repente, a gente sente vontade novamente de estar entre as pernas do avô, sendo virada de cabeça para baixo enquanto uma voz canta: serra serra serra dô, serra o papo do vovô!

Corrida

Torre do James Joyce Museum – Sandycove – Irlanda

Um. Dois. Três. Quatro. Cinco.

O indicado é só isso, mas ela não retorna o frasco à posição vertical. Então, o frasco pinga mais uma, duas, três gotas… Ok, já é hora de parar.

Ela sente o líquido amargo-adocicado descendo pela garganta antes de subir ao cérebro e se pergunta se, de alguma forma inconsciente, ela também sente o caminho das gotas percorrendo suas veias até atingir o alvo. Seria interessante observar o nascimento do efeito, o antes e o depois do medicamento. Será que existe algum exame que identifique isso? Ela faz uma nota mental para perguntar ao psiquiatra na próxima consulta on-line. E também para perguntar se tais pensamentos são normais. Devem ser, ela sempre os tem. Devem ser culpa do Transtorno de Ansiedade Generalizada ou da Depressão causada pelo transtorno. Ou talvez exista ainda alguma doença não identificada nela.

É, talvez seja isso.

Interessante pensar que um simples dar de nome aos sentimentos a conforta, ainda que seja esquisito ser confortada por algo assim. Por que até mesmo os seres humanos mais ermitões se sentem acolhidos com a ideia de serem colocados em uma caixa junto a outros seres humanos? Uma pergunta para a qual ela nunca encontrara uma resposta verdadeira.

Ela guarda o copo novamente no armário (quando foi que ela o lavou?) e seus olhos recaem automaticamente sobre as chaves ao lado da porta. Talvez ela devesse retirá-las de lá novamente, mas não há sinais de que alguém vá tentar sair de casa. Por enquanto, a Corrida das Chaves não parece ser uma atividade futura da família.

Ainda bem, ela pensa, pois a última corrida para guardar todas as chaves à vista a deixaram exausta!

Ela respira fundo, como se estivesse vivenciando tudo novamente e tivesse ficado cansada só de pensar. A verdadeira corrida é a que se passa em sua cabeça, no fim das contas.

Em passos de ritmo inversamente proporcional aos seus pensamentos, ela volta a se encaminhar para o quarto – o único lugar da casa que é realmente seu. Em seu tamanho acolhedor (que muitos considerariam claustrofóbico), ele serve ao seu propósito: local de descanso, de trabalho, de leitura, de diversão, de isolamento.

Ela ri ao pensar nesta última palavra.

Não que a palavra em si seja engraçada, mas a ironia da vida por esses dias a tem atingido de maneiras indescritíveis e inesperadas. Antes, ela sempre buscara o isolamento; agora, sendo ele obrigatório, ela busca o ar livre, as pessoas, os risos de crianças correndo e ignorando os pais quando estes lhes dizem para não colocarem terra na boca.

É sempre curioso observar como a História é cíclica, como o comportamento humano – não só o dela – é o mesmo em qualquer lugar do mundo e em qualquer época desde que o planeta é planeta. O comportamento humano é, quase sempre, contraditório. É o “Take for granted” do inglês que, para ela, sempre fora a expressão mais difícil de ser traduzida. É o sentimento de não se dar valor a algo no dia a dia simplesmente porque está lá o tempo todo, porque é algo certo; é como estar trancada dentro de um quarto em um dia de sol por escolha própria, simplesmente por ter a certeza de que outros dias de sol virão e que não fará diferença nenhuma sair naquele dia especificamente.

Os dias de sol – os reais, não os metafóricos – realmente continuam a vir. A diferença é que agora ela não pode mais escolher sair do quarto ou não.

Na verdade, pode, sim.

Pode ir até à sala, onde os pais estão embrenhados na interminável discussão que já dura 40 anos; pode ir até à sacada e se deitar na rede, onde vai ouvir os vizinhos que preferem acatar a palavra de um ser que se diz presidente (e que se assemelha muito àquelas crianças que colocam terra na boca, diga-se de passagem) estarão dando uma festa na calçada, possivelmente espalhando o vírus pela vizinhança inteira. Portanto, o cubículo claustrofóbico que ela chama de quarto continua sendo seu único porto seguro.

Só agora é que ela percebe que a ideia que ela sempre tivera de isolamento sempre fora um pouco diferente da sua rotina diária. O isolamento, na mente dela, sempre envolvera montanhas, mar, liberdade, felicidade.

Ela fecha a porta para continuar a trabalhar e abafar um pouco o barulho externo, mas o que incomoda mesmo é o barulho interno. São tantos sentimentos, tantas possibilidades de morte… O pai, a mãe, a irmã, a tia, a amiga americana que não para de mandar mensagens para tentar se acalmar sem saber que está fazendo a brasileira entrar em pânico. E quando ela entra em pânico, apenas uma coisa se fixa em sua mente: sua própria possibilidade de morte. As muitas e muitas gotas daquele outro remédio que com certeza proporcionariam isso.

Será que morrer anestesiada é muito ruim? Como será que é morrer? Será como dormir sem se ter consciência do sono que se está tendo?

Não que ela queira morrer de fato, ela só não queria estar viva. Poucos veem a diferença e ela já desistiu de tentar explicar; ela já se acostumou com o fato de as pessoas só darem importância a doenças visíveis.

Com esse último pensamento, ela percebe que já se permitiu divagar demais, para lugares que é melhor não visitar. O melhor a fazer é voltar ao trabalho.

Ela se senta na cama, respira fundo, coloca o computador no colo e começa a digitar novamente. Políticas de segurança e confidencialidade, pelo menos, são assuntos diferentes. Traduzir uma lista de regras é melhor do que traduzir, ler, ouvir e respirar a única palavra que o ser humano parece ser capaz de reproduzir ultimamente: quarentena (as variações são “pandemia”, “isolamento”, “Coronavírus” e “Covid-19”).

Pelo menos o trabalho a mantém sã.

Pelo menos por ora, já que ela perdeu o timing de tirar um ano sabático para descobrir quem ela é e o que quer de verdade da vida. Alguns diriam que ela perdeu o timing em uns 10 anos, mas, para ela, foi por pouco.

Talvez seja esse o arrependimento que mais a assombre caso ela morra, digamos, amanhã. Ela sabe que deveria ter feito isso quando teve vontade, mas os obstáculos financeiros a impediram. Chega a ser agoniante que, agora que ela tem mais tempo para pensar, ela perceba que foram obstáculos criados por ela mesma, que sempre houve solução para tudo, mas que, por puro medo de ir e encontrar algo totalmente diferente ao voltar, ela se impediu de viver a própria vida. Viveu a vida dos outros, a que os outros queriam para ela, a que os outros consideravam uma vida “normal”.

Não, ela não quer ter relacionamentos, nunca sentiu vontade nenhuma de ter filhos, nunca quis ficar presa a nada.

Ironicamente, ficou presa aos próprios pensamentos.

Mas isso não importa agora, importa? O que importa é que o medo da perda que sempre a assolou está mais forte e real do que nunca.

Ah, é! O trabalho continua à espera. É melhor começar a digitar novamente ou ela terá de passar mais uma noite em claro.

Ela lê o original enquanto digita: Política de…

“Presidente demite o Ministro da Saúde”, a tevê da sala informa, no momento em que, por milagre, os pais estão em silêncio. Lá se vão as chances de tentar se concentrar no trabalho de novo! Lá se vai a única pessoa sã (pelo menos na crise atual) do dito governo!

E agora?

Nessas horas, seria bom acreditar em alguma coisa, em algum ser onisciente e onipotente que sabe o que está fazendo. Ela chega até a sentir falta da época em que acreditava com fervor, as épocas passadas em que a Depressão fora amenizada indo à igreja toda semana. Mas, com o passar do tempo, aquela mágica se perdeu. É como se antes ela estivesse hipnotizada e só agora pudesse ver a verdade. Porque, como acreditar em um deus que permite a existência de pandemias?

É o livre arbítrio, lhe dizem os religiosos. Deus não tem nada a ver com isso.

Ah, é? – ela pensa em dizer. – E qual exatamente foi a minha escolha nessa situação específica? Alguém me perguntou se eu queria que um vírus acabasse com boa parte da população mundial? E todas as crianças que morrem em decorrência de guerras ou simplesmente por falta de alimentos. Alguém deu escolha a elas?

Mas ela não discute, pois sua experiência ao longo de seu recente ateísmo a fez observar algo muito curioso: enquanto são os religiosos que saem por aí falando de boca cheia sobre amor ao próximo e sobre aceitação, eles são os primeiros a também encherem a boca para afirmar que só quem acredita em Deus será verdadeiramente salvo. Ou seja, se você não acredita no que EU acredito, não vale muita coisa.

Belo exemplo de amor, esse aí; mais uma prova de que a humanidade ainda está longe de entender qualquer coisa que seja. Talvez a humanidade só entenda mesmo de egoísmo, ainda que pregue altruísmo. Outra das contradições dignas de riso.

Ela chacoalha os ombros, rola o pescoço de um lado para o outro, estica os dedos. É o peso do mundo tentando dar as caras de novo, e não se passaram nem dez minutos desde a última vez.

O pai tosse e é o estopim para uma nova cadeia de pensamentos. O pai é idoso, fumante desde a adolescência, e, aos 65 anos, ainda trabalha, mesmo estando aposentado. A razão é simples: os salários das filhas não são suficientes para sustentar quatro pessoas e mais três gatos. Ela pensa no quanto gostaria de poder ajudá-lo e em como ela vai precisar fazer isso a todo custo quando ele for demitido de vez, já que não está indo trabalhar por exigência dela própria.

“A gente se vira”, ela dissera então. Mas, agora que a realidade bate à porta, ela fica se perguntando em como, exatamente, ela vai fazer para se virar. A única alternativa no momento é entrar em um poço muito profundo do qual ela sabe que não há volta. É o poço do preciso-continuar-trabalhando-nessa-profissão-que-já-não-me-faz-mais-feliz-para-conseguir-sobreviver.

Sobreviver e só.

Pelo menos ela tem alternativa, já que faz parte de um grupo de privilegiados que podem se dar ao luxo de trabalhar em casa. No entanto, reconhecer seu privilégio não impede que ela continue a pensar: eu realmente deveria ter partido enquanto havia tempo.

Respira, ela diz a si mesma. O importante é respirar.

Mas, ao respirar, ela pensa na mãe e na sua relação quase que simbiótica com ela. O que a mãe sente, ela sente. A mãe também é idosa, hipertensa e, mesmo já tendo quase morrido por conta de seus pensamentos dedicados à primeira família, ainda dedica todo o seu tempo acordada a pensar no pai de 91 anos e no irmão esquizofrênico-e-mais-um-monte-de-rótulos, ambos a quem ela TEM DE ajudar porque é sua missão de vida, não importa o que esteja acontecendo no mundo e não importa que os outros quatro irmãos deveriam ter sua parte nessa ajuda também.

Foi por isso que houve a Corrida das Chaves da última vez, ela se lembra. Porque, no fim das contas, a mãe pensa no pai, a filha pensa na mãe e… quem pensa na filha? Ela tem de tentar evitar que algo de ruim aconteça com sua família inteira, tem de impedir a mãe de gostar mais do pai que só pensa no próprio umbigo do que da filha que pensa em todo mundo. Mas isso também é egoísmo, ela pensa. Esse pensamento é tão egoísta quanto todos os seus outros pensamentos. É o egoísmo que ela hipocritamente diz que faz parte dos outros e não dela. Ela se odeia. Ela se odeia por isso e por todo o resto.

Ela olha para o computador novamente, mas as palavras na tela se embaralham quando as lágrimas borram os olhos. Ela perde a linha de raciocínio, a ordem perfeita das palavras para traduzir exatamente o que o original quer dizer e de forma fluida. Isso tem acontecido muito nos últimos dias.

Ela enxuga as lágrimas com a parte de trás das mãos e decide parar o trabalho por ora. Escrever algo original sempre a ajuda nessas situações.

Ela abre o aplicativo do blog que ninguém lê e deixa as palavras virem. Ela escreve sobre o desejo do mar, o desejo de morar no mar, o desejo de ser mar. É um texto ruim, algo que uma criança poderia ter escrito, mas isso a acalma por um instante. Isso a faz lembrar de todos os mares que ela já viu e de todos os que ela ainda quer ver.

Ela sorri.

Ela se agarra a essa fagulha de esperança de que ainda haverá futuro, de que o amanhã não parecerá uma distopia de mau gosto. Ela resolve acreditar que os dias de sol – os metafóricos, desta vez – virão antes que ela possa terminar o trabalho à sua frente, e que haverá chance de fazer tudo aquilo que sempre sonhou, tudo aquilo que deixou para trás numa tentativa frustrada de se encaixar numa sociedade padronizada.

Esse pensamento (ou talvez seja o remédio fazendo efeito) faz a diferença por uma hora inteira; dura até o exato momento em que a voz da mãe vem da sala dizendo: ele não atende. Pode ser que ele esteja só dormindo, mas… vou ter de ir até lá para ver se está tudo bem.

E aí, a Corrida das Chaves começa de novo porque a mãe só vai sair de casa por cima do cadáver da filha.

A mãe chora, a filha chora, o pai da mãe provavelmente dorme.

E, então, a filha finalmente cede, pois sabe que, se fosse ela no lugar da mãe, faria exatamente o mesmo.

A mãe abraça a filha e a agradece por existir. A filha se arrepende de ter pensado brevemente (novamente) nas gotas que a fariam dormir para sempre.

A filha sabe que tem um motivo para viver e então fica ali, em pé e exausta, à porta, à espera da volta da mãe e dos dias anteriores à quarentena.

E, no quarto claustrofóbico, o trabalho ainda espera a filha.


O texto acima foi enviado para uma possível publicação em uma coletânea. Como foi rejeitado, estou publicando aqui mesmo. Talvez eu publique uma espécie de spin-off dele que não enviei para lugar nenhum nos próximos dias =).

Obrigada a todos pela atenção e espero que alguém tenha gostado.

(A)batimento

Da minissérie “Bleak House”, Da BBC. https://br.pinterest.com/pin/392516923752285891/

Eu quero explodir. Virar uma heterogeneidade de carne que hoje parece homogênea. Dos pés à cabeça, tudo dói. Por dentro, por fora, na parte invisível. Os neurônios. As sinapses não feitas ou feitas em excesso (será que existe isso?), o peito que sacode feito uma bateria de escola de samba, só que sem felicidade. É puro desespero de um coração que está pedindo permissão para explodir. Será que explode? E se explodir, o que vai virar? O que vai deixar? Será vazio ou alívio? Na atual situação, talvez alívio. Por enquanto, converso com ele e peço que escute Fernando Pessoa e sossegue. Talvez um coração partido em mil pedaços valha mais que um coração que não existe mais.

O Hoje

Acordei cheia de ideias, de criatividade, de fazer do mundo um lugar melhor. Uma mudança repentina em meu costumeiro humor soturno dos dias atuais, um humor tão cinza que parecem os céus de São Paulo numa segunda ou sexta-feira.

Mas o humor de hoje é colorido, feito o céu com sol lá fora. Hoje, um sábado, parece tão cheio de possibilidades e de vida que é quase um desperdício ter de ficar em casa. Mas ficar em casa é sempre a melhor opção. Ficar vivo é – e sempre será – a melhor opção (que os dias de humor cinzento me ouçam muito bem!).

Me pergunto os motivos disso. Terá sido a boa noite de sono? Terá sido o episódio da série favorita antes de dormir? Terá sido a releitura daquele livro querido? Terá sido a tomada de uma simples e minúscula decisão? Terá sido o elogio não esperado ou as memórias de um ano atrás? E, ao mesmo tempo em que me faço esses questionamentos e me embrenho em pensamentos sobre os reais motivos do bom humor, chego à conclusão de que o motivo está bem aqui: estou viva; estamos vivos. Apesar de tudo, estamos em pé (mesmo que deitados) em nosso privilégio que nem sempre reconhecemos.

Motivos são misteriosos, às vezes. Mas, às vezes, eles são tão escancarados que pensar demais pode fazê-los escapar da compreensão, voando quase na mesma velocidade das maritacas que passam em bando todos os dias pela minha janela.

Pensar demais estraga.

Portanto, hoje me permitirei não pensar. Me permitirei gozar dessa leveza que a mente me deu por algumas horas. Me permitirei sentir tudo isso ao máximo para que dure mais do que um dia inteiro.